Parabéns Professor: Paulo Henrique completa 75 anos de uma glória eterna do Flamengo e do Goytacaz

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Pele rubro-negra, coração alvianil. Ou o contrário. Definir Paulo Henrique não é tarefa fácil, uma vez que sua vasta carreira como jogador e treinador tem histórias suficientes para escrever alguns livros. Mas sua identificação com duas das camisas mais importantes do futebol do Rio de Janeiro, Flamengo e Goytacaz, o tornam querido por verdadeiras nações de torcedores. Os 75 anos de Paulo, completados nesta sexta-feira (5), são uma data ainda mais marcante por ele não só seguir recebendo este carinho mas ainda estar em plena atividade, hoje como treinador do time da Rua do Gás, onde bateu recordes e conquistou títulos. Além de ídolo eterno do Rubro-Negro, que defendeu por dez anos.

Paulo Henrique de Souza Oliveira nasceu em Quissamã, à época distrito de Macaé, em 5 de janeiro de 1943. Seus irmãos, Valmir, Roberto e Valcir, jogaram por Quissamã, Bonsucesso e Sampaio Corrêa (MA), respectivamente. Mais tarde, outros dois caçulas, João Batista e Marcos, também virariam profissionais mais tarde. Mas Paulo deu seus primeiros passos como jogador no próprio Quissamã. Na adolescência, dividiu-se entre a bola e a usina de cana de açúcar, onde foi aprendiz de torneio-mecânico. Só aos 15 anos é que foi observado por um olheiro e acabou parando no Flamengo. Na base, faturou seis títulos e começou a se firmar como promessa. Na época, era chamado apenas de Paulinho.

O garoto que substituiu um "monstro sagrado"
Sua estreia pelo time principal do Flamengo foi bastante precoce, em 23 de outubro de 1960. A Rua Conselheiro Galvão receberia Madureira x Flamengo, pela terceira rodada do segundo turno do Campeonato Carioca. Jordan era o titular absoluto da lateral esquerda e tricampeão pelo Rubro-Negro. Já somava oito anos de clube e era exemplo máximo de dedicação e amor ao Flamengo, mas estava machucado. Chegou-se a especular que o reserva Ouraci é que começaria o jogo. Mas quando o experiente treinador paraguaio Fleitas Solich lançou um menino de apenas 17 anos, ainda do time juvenil, todos ficaram surpresos. Inclusive, o próprio agraciado que estava para receber a oportunidade.

imageAntigamente, os treinadores integravam o jogador que vinha da base, mas o faziam voltar depois. Fui campeão no infanto-juvenil e no juvenil, na época não tinham juniores. Tudo aconteceu muito rápido. O Jordan foi um monstro sagrado, ficou 11 anos como titular no Flamengo. Essa oportunidade chegou quando eu não esperava. Estava concentrado para jogar nos juvenis no dia seguinte. Aí o Fleitas mandou me chamar. Pensei até que tinha acontecido alguma coisa porque ele era meio exigente. Me pediu para ir ao quarto dele, disse que eu jogaria, mas que eu podia ficar concentrado lá com os juvenis mesmo, que só no outro dia é que eu tomaria café com o time principal e iria para o jogo. Jogamos bem, ganhamos de 2 a 1. E me lembro bem: marquei naquele jogo o Nelsinho, que depois seria meu companheiro no Fla – lembra.

Depois disso, Paulo só voltou a atuar no elenco profissional em amistosos e excursões. Mas já era um nome com o qual se podia contar. Em 1963, o Flamengo faria um amistoso contra o Ferroviário (CE) em Fortaleza. Jordan, já em fim de carreira, estava novamente fora de combate. O técnico Flávio Costa decidiu dar espaço a Paulo Henrique. O Fla venceu por 4 a 3 no Ceará e foi a partir dali que o novo lateral nunca mais deixou a titularidade. Destacava-se, sobretudo, pela antecipação aos atacantes adversários, pela força defensiva e a lealdade na marcação. Numa época em que laterais pouco iam ao ataque, ser uma rocha na defesa era fundamental. Mas o desafio de substituir um nome histórico como Jordan era um peso a se lidar:

– A gente estava treinando em São Januário. Na época, a relação entre Flamengo e Vasco era muito boa. O Flamengo estava refomando a grama da Gávea e o Vasco ofereceu-se para fazer um coletivo. No último treinamento, o Jordan se machucou numa dividida lá. E eu estava de fora, esperando terminar o primeiro tempo para entrar. O "seu" Flávio me chamou e disse: "Paulo Henrique, entra ali no lugar do Jordan e faz o que você faz no juvenil, não queira inventar". Foi o que eu fiz. Infelizmente, o Jordan nunca mais jogou. Mas eu tive o prazer de substituí-lo. Dei sorte e fui eleito depois o melhor lateral do campeonato.

O Flamengo não ganhava um Carioca desde 1955 e precisava dar a volta por cima com um time jovem. Se o Botafogo de Garrincha colocava medo, era o atual bicampeão e tinha acabado de tirar o "Canhotinha" Gérson do próprio Flamengo, no meio do campeonato, os comandados de Flávio tiveram raça ao arrancar para uma conquista que se tornaria memorável. Com Paulo Henrique em campo, o Rubro-Negro não perderia mais até o fim da competição. Mesmo sem uma referência como Jordan, o Fla estava bem resguardado na defesa esquerda. E ainda tinha Carlinhos, Dida, Murilo, Airton, Espanhol, Luis Carlos...

Em 63, nem Garrincha foi páreo
imageUma vitória sobre o Vasco, por 4 a 3, no aniversário do Flamengo, ficou marcada como o momento de virada. Ali, o Flamengo só reagiu já perto do final. Foi quando o Mengão encostou no Fluminense, então líder na classificação. Mas um encontro com Mané Garrincha é que ficaria marcado como o grande cartão de de para Paulo Henrique perante imprensa e torcida. O jornalista Geraldo Romualdo da Silva disse, no "Jornal dos Sports", ter ouvido de um conselheiro do Flamengo que o clube tinha encontrado um novo Biguá, raçudo lateral que defendeu o clube por 12 anos e foi referência histórica. O empate sem gols com o Botafogo ficou em segundo plano: no dia seguinte, só se falava no menino que anulou o "anjo das pernas tortas".

– Eu não dormi na noite anterior. Foi difícil fechar os olhos, eu só via Garrincha na minha frente. Mas o marquei com lealdade, jamais dei um pontapé. No ano anterior, ele tinha feito dois gols sobre o Flamengo na final do Carioca. O Jordan jogou, mas foi infeliz, o Garrincha não tinha marcação mesmo. Fui estudando seus movimentos, como devia marcá-lo. Não joguei, mas também não o deixei jogar. No outro dia, falaram nos jornais: "garoto Paulinho pára Mané Garrincha". Se eu fosse marcar um cabeça-de-bagre, talvez não seria hoje o Paulo Henrique. Foi ali que Flávio Costa me disse que eu devia encaminhar a carreira. E eu nem tinha contrato, ganhava uma mixaria. Anos depois, o Garrincha jogou comigo no Flamengo. E olha como são as coisas: eu nunca tinha visto uma foto minha com ele. Me mandaram essa foto hoje (quinta-feira), a do time do Flamengo comigo e Garrincha. Rapaz, que coisa. O Mané foi um grande amigo. Meu amigo Garrincha – recorda-se, saudoso.

O dia 15 de dezembro marcou a rodada final do campeonato carioca de 1963, colocando frente a frente Flamengo e Fluminense. O chamado "Fla-Flu do Século" foi o jogo de clubes com o maior público da história do Maracanã, com 194.603 presentes. O empate sem gols, com Marcial fechando o gol rubro-negro, deu ao Flamengo o sonhado título, por apenas um ponto. Paulo conquistava seu primeiro troféu na carreira após apenas 13 jogos oficiais. Saiu de campo exausto e machucado, mas também emocionado e com a faixa de campeão. Era o fim da dinastia de Jordan, aposentado ao fim daquela temporada. Era também o começo de uma nova era de sucesso com a camisa 6 rubro-negra, que duraria mais uma década.

Em 1964, a conquista do Troféu Naranja, sobre o Valencia (ESP), foi o primeiro título internacional de Paulo Henrique, que voltaria a ganhar um Carioca no ano seguinte. Tantas boas atuações fizeram o técnico Feola, da Seleção Brasileira, observá-lo. Quando formava o plantel para a Copa do Mundo de 1966, ele o chamou para um período de testes que envolveu 45 jogadores, mais tarde reduzidos para 22. Ele estava na lista final e começaria o Mundial como titular, substituindo o botafoguense Rildo, além de bater o vascaíno Oldair e o tricolor Altair na convocação definitiva. Para Paulo, aquela era a confirmação de sua fama de sucessor de estrelas: o Mundial da Inglaterra seria o primeiro sem Nilton Santos, veterano de quatro Copas anteriores e campeão em duas.

– Você não imagina. O Nilton era muito meu amigo, a gente conversava bastante. E eu falava a ele, brincando: "Seu Nilton, eu joguei mais que o senhor. Eu marquei o Garrincha, o senhor não precisou marcá-lo". Na verdade, foi um orgulho ser o sucessor dele e formar aquela linha defensiva. Era Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Orlando e Paulo Henrique. A defesa campeã mundial, oito anos antes, comigo jogando junto – diz Paulo Henrique.

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Com uma incomum camisa 8, Paulo Henrique chegou a Liverpool após nove partidas com a Seleção. A estreia foi contra a Bulgária, batida por 2 a 0. Três dias depois, porém, o Brasil conheceu a primeira derrota: Hungria 3 a 1. Para a decisão, contra Portugal, Paulo ficou de fora e Rildo foi para o jogo. Até Garrincha ficou fora e quase o time todo foi mudado de uma partida para outra. O cúmulo da falta de organização culminou com a eliminação, com um novo 3 a 1, desta vez a favor dos "Magriços" de Eusébio e cia. O sonho do tri se desfez e o que sobrou foi uma grande frustração:

– O Brasil tinha time para ser campeão, mas muita coisa interna desestabilizou. Tínhamos aquela Copa como certa, mas futebol é assim. Contra Portugal, o Feola e o Carlos Nascimento (supervisor) tiveram um problema sério e sacaram nove de uma vez, na hora do jogo. Inclusive eu, que não era para ter saído. Até o João Saldanha, botafoguense, foi contra a minha saída para que entrasse o Rildo. Eu não tinha problema nenhum em sair para ele jogar; o Rildo era meu amigo, jogou bem e ainda fez o gol. Mas o Saldanha reclamou. Perdemos a partida anterior, mas jogando bem. Antes mesmo do jogo com Portugal, a gente já sabia que ia perder.

"Eu encarnei aquela camisa do Flamengo"
Se, na Seleção, Paulo Henrique foi perdendo espaço para Sadi, Rildo e Everaldo, na Gávea ele seguia como titular inconteste. Sua liderança e força o tornaram um dos símbolos da equipe. O reconhecimento dos torcedores era notório e algumas histórias ficaram marcadas, como no dia em que o Flamengo levou 3 a 0 do America, em 1967, e todos os jogadores desceram o túnel do Maracanã sob fortes vaias. Até que Paulo Henrique passou: só aplausos. Quando Carlinhos, o Violino, se aposentou, foi Paulo Henrique quem herdou de vez a faixa de capitão, que já usava em outras ocasiões em que o meio-campista se ausentava.

Títulos, Paulo Henrique teve muitos. Só nos profissionais do Flamengo, foram 18. Em algumas vezes, teve a honra de levantar as taças. Mesmo nas fases não tão bem sucedidas, como a segunda metade da década de 60, ele seguiu dominante na posição e se firmou como figura de destaque no clube. Naquela altura, aliás, viveu situações curiosas, como a de editar com o irmão mais novo, Marcos, a defesa rubro-negra: Paulo Henrique na esquerda e o caçula na direita. Teve ainda pela frente outro irmão, Batista, que jogava como meio-campista no Vasco, em 1970. No encontro entre ambos, empate sem gols.

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A valorização de Paulo era grande também perante os diretores. Pela sua grande identificação com o clube da Gávea, o Flamengo só aceitava vendê-lo por CR$ 300 milhões, uma fortuna. A única vez em que deixou o Rubro-Negro foi durante o ano de 1971. Numa troca com o Botafogo, que envolvia o atacante Roberto Miranda, Paulo Henrique vestiu preto e branco no Carioca daquele ano, em que foi vice-campeão, voltando logo depois à Gávea. Quando deixou de vez o Flamengo, no começo de 1972, já tinha somado incríveis 437 jogos e 14 gols. Depois, passou ainda por Avaí (SC), Bahia e Bonsucesso, onde pendurou as chuteiras.

– Eu era muito querido pela torcida. Podia errar, mas não me vaiavam porque eu brigava e lutava o tempo todo. Cheguei a assinar contrato em branco com o Flamengo. Foram só nove que eu assinei na carreira, quase nada (risos). Eu digo o seguinte: antes do Zico, o Flamengo também teve seus ídolos. Éramos eu, o Silva, o Murilo... Ídolos de não poder andar na rua. Eu não conseguia chegar onde eu queria porque a torcida do Flamengo não deixava. E eu atendia a todos com carinho. Eu encarnei aquela camisa do Flamengo, podia beijar aquele escudo. Eu e meus companheiros, aquela turma toda. Minha única decepção é nunca ter treinado o Flamengo. E olha que não faltaram oportunidades, mas isso não muda nada o que sinto pelo clube – diz Paulo.

A vida de técnico e uma nova paixão
Paulo Henrique se aposentou precocemente, aos 31 anos. Foi quando surgiu a chance de tornar-se treinador. Ele recebeu um convite do Campos Atlético, aceitou e treinou o Roxinho em 1975. Em princípio, a diretoria queria que ele também jogasse, o que o fez ter suas últimas partidas na carreira pelo clube da Baleeira. Atuou pouco, mas sagrou-se campeão da Taça Cidade de Campos, incluindo uma atuação memorável contra o Americano, quando deixou a prancheta de lado, entrou no segundo tempo e virou um jogo em que seu time perdia por 2 a 0.

Logo na sequência, Paulo Henrique foi contratado pelo Americano, então estreante no Campeonato Brasileiro. Conduziu o time a uma boa campanha, incluindo uma vitória sobre o Santos (SP). Foi quando surgiu o Goytacaz, que estava prestes a ser convidado para seu primeiro Campeonato Carioca. Foi com Paulo que o Goyta jogou quatro Estaduais e três Brasileiros entre 1976 e 1979. No último Carioca, um honroso sexto lugar foi a melhor marca da história alvianil. Ele treinou o Goyta por quatro anos, tornou-se um ídolo e acredita que aquele foi o mais talentoso elenco já formado pelo clube campista:

– Para mim, foi. Na minha opinião, como treinador, aquele Goytacaz teve um histórico muito bonito. Era um time quase todo formado por jogadores de Campos. Tinha Wilson Bispo, Piscina, Zé Neto. A gente tinha só uns dois ou três jogadores que vieram emprestados do Atlético (MG), que eram o Coca e o Marcos Vinícius. Aquele foi um dos melhores times da história do Goyta. Por isso é que eu digo que, já naquela época, eu era parte dessa história do clube. Só voltei para completá-la.

Quando a década virou, Paulo voltou ao Americano, onde comandou a equipe no Brasileirão de 1980 e logo depois se mudou para o América (RN). Mas, depois de apenas quatro meses, voltou ao Alvinegro. Em seguida, rodou por Remo (PA), Anapolina (GO) e voltou ao Rio para treinar a Portuguesa, em 1982. Porém, a campanha lusitana no primeiro turno do Estadual não foi boa e Paulo Henrique deixou o clube sob protestos dos jogadores, que o admiravam. Foi quando começou sua passagem pelo Oriente Médio, onde treinou a seleção de Omã e o Al-Shabab, dos Emirados Árabes. E o responsável por isso foi um ex-companheiro de Flamengo, com quem foi campeão carioca de 1965: Evaristo de Macedo.

– Havia muitos problemas naquela Portuguesa. Até compra em mercado para jogador eu ia fazer, para colocar comida na concentração. Quando pensaram em me mandar embora, os jogadores foram até o presidente e reclamaram. Disseram que ele estava errado, que eu não era o culpado e que eles é que deviam ser responsabilizados. Que se alguém tinha que sair, eram eles e não eu. Acabei ficando, mas não por muito tempo. Tivemos um amistoso com a seleção do Qatar e o técnico era o Evaristo. Ele chegou para mim no banco e disse que eu deveria sair da Portuguesa e que me tiraria de lá: ia voltar para o Qatar no dia seguinte e mandaria me buscarem aqui. Deu 15 dias, chegou o ministro de Omã, fez a oferta e me levou embora – lembra.

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Foram quase duas décadas no exterior, quando surgiu a oportunidade de voltar ao Brasil. Em 1999, Paulo foi convidado para regressar ao Goytacaz e aceitou o convite, treinando o time durante a Segundona do Carioca, não conseguindo subir, no entanto. Mas foi em sua terra natal que abriria-se a grande oportunidade da carreira. Em 2007, ele foi contratado pelo Quissamã, onde tinha começado a carreira de jogador, agora para o cargo de técnico. Na terceira divisão do Rio, iniciou um longo trabalho que culminou com os títulos da Terceirona e da Segundona num espaço de apenas quatro anos. Um conto de fadas que acabou logo após sua saída, com o clube amargando uma dura realidade a partir de então.

– O Armando (Carneiro), prefeito de Quissamã, queria me repatriar. Pegamos a coisa do zero lá, mas eu tinha uma prefeitura atrás, me dando suporte. Ele me disse que eu tinha seis anos para colocar o clube na primeira divisão. Fomos trabalhando, dois anos na Terceirona, sem chegar, até que fomos campeões. Mais dois anos na segunda e, no último ano, a gente foi campeão de ponta a ponta e subiu para a primeira. Fizemos tudo em seis anos e o clube acabou em um ano. Foi a maior vergonha para o futebol. O Quissamã chegou num lugar onde muita gente mais poderosa nunca chegou. Não tinha nada, cara. Uma cidade de 16 mil habitantes, um time que chegou na elite... Para terminar falido e desfiliado – lamenta.

Um veterano (ainda) a serviço do futebol
Paulo comandou ainda, nos anos 2010, Sendas, Atlético Itapemirim (ES) e América de Três Rios. Neste último clube, também viveu uma questão familiar dentro de campo, ao enfrentar o Serra Macaense, que era treinado por seu filho, também Paulo Henrique. Aliás, o rebento também foi jogador do Flamengo nos anos 80 e seguiu carreira defendendo outros clubes. A curiosa situação foi a porta de entrada para que ambos pudessem trabalhar juntos, como estava sendo planejado para 2017. Mas a vida tinha outros caminhos. Homem de muitas histórias em campo, Paulo Henrique viveu a mais marcante fora dele. Paulo Henrique Filho faleceu em fevereiro, aos 51 anos.

O luto deu lugar à motivação. Apenas algumas semanas depois da perda, Paulo foi chamado para treinar novamente o Goytacaz. Em sua terceira passagem pelo clube, montou o time que jogou a Série B1 do Estadual e a conquistou, reconduzindo o Goyta à primeira divisão do futebol carioca em uma emocionante classificação, tornando-se o técnico que mais comandou o Alvianil em todos os tempos e também o treinador mais velho a ser campeão carioca em qualquer divisão. Um momento inesquecível e uma temporada de virada para o veterano. Por essas razões, há quem o considere, em Campos, mais ídolo do que muitos jogadores que vestiram a camisa alvianil.

– Além do Flamengo, o Goytacaz está na minha história. Foi um orgulho voltar depois de 40 anos, acho que isso é inédito. E eu disse, há cinco anos, numa brincadeira, que o Goytacaz só voltaria para a primeira divisão se fosse comigo: "Se querem voltar à primeira, só com o Paulo Henrique". E se criou uma coisa, uma repercussão, deu a hora em que até na televisão falavam disso. Aí, me contrataram e nós chegamos lá. Lá atrás, acho que em 1977, a imprensa falou que o ídolo do Goytacaz jogava no banco. Era eu. Para qualquer pessoa, isso é um orgulho muito grande. Se eu fosse embora hoje, poderia sair de cabeça erguida por tudo que fiz aqui – garante.

De jogador de sucesso a treinador dono de reputação respeitável entre os clubes de menor investimento, Paulo Henrique passou as últimas seis décadas dedicando-se totalmente ao futebol e não parece disposto a parar. Com um fôlego talvez ainda maior do que o dos tempos de lateral-esquerdo, uma saúde de ferro, uma memória fotográfica e muito amor pelo que faz, ele provou não sentir o peso de uma camisa como a 6 do Flamengo, nem o de desbravar o Oriente Médio numa época em que poucos se aventuravam, tampouco de entregar seu melhor para chegar duas vezes à elite do futebol carioca. Nem as marcas deixadas pelo tempo tiraram o sorriso de seu rosto e é com este espírito que ele tenta continuar fazendo história:

– É uma emoção muito grande. Normalmente, os treinadores de futebol, quando fazem 75 anos, costumam estar descansando. Graças a Deus, eu estou tendo força para seguir trabalhando. Joguei 16 anos no Flamengo e, para mim, isso é tudo na vida. Ser capitão do Flamengo por oito anos, ter jogado uma Copa do Mundo, estar na história do Goytacaz... Isso tudo me orgulha muito.
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Fonte: FutRio

Fotos: Revista do Esporte, Jornal dos Sports, Vitor Costa (FutRio), Carlos Junior (FutRio) e Carlos Grevi

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