As bizarrices da Série B2 do Rio, o Campeonato que teima em não acabar nesta temporada

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O Campeonato Carioca da Terceira Divisão se notabilizou, por muitos anos, por ser o refúgio dos fatos mais inusitados do futebol profissional do Rio de Janeiro. Último nível do Estadual por mais de uma década, a "Tercechampions" passou por uma espécie de "rebranding" em 2017, virando oficialmente a Série B2 e passando o bastão de degrau mais baixo à recém-criada Quarta Divisão. Em 2018, porém, o velho espírito do insólito e do improvável parece ter voltado com tudo na Terceirona, que ainda por cima vive atualmente um momento de enorme indefinição, com uma paralisação que já chega a um mês e sem a certeza de quem subirá para a Segundona do ano que vem. Ano este que, aliás, está perto de chegar.

Maricá, Nova Cidade, Queimados, Campos e Pérolas Negras ainda não sabem o que será feito do acesso que, no campo, foi conquistado por nilopolitanos e campistas: um grande imbróglio judicial e seguintes instâncias e adiamentos foram arrastando o processo, deixando o campeonato indefinido até as portas de um novo ano. Mas o fato, embora seja o mais irritante para torcedores e clubes, passou longe de ser o único a beirar o inacreditável na terceira divisão. O FutRio.net elencou um "Top 11" de situações bizarras e pouco comuns no futebol de grande porte, mas que puderam ser vistas na Série B2 deste ano. Para bem ou para mal, fatos até pouco estranhos a campeonatos como estes.

Se o campeonato deste ano não conviveu com a rotina de WOs (o que se viu com muito mais frequência na Quartona), alguns momentos dentro e fora de campo acabaram ficando marcados e podem ou não deixar saudade em uma competição que parece insistir em não acabar. Oficialmente, tudo faz parte de um torneio que ainda está em andamento, mesmo que o calendário inicial tenha sido rompido em muitas semanas... Abaixo, os 11 momentos mais insólitos da Terceirona de 2018 – uma lista que pode até aumentar. Boa leitura!


11. Mudanças em cima da hora
As alterações na tabela da B2 foram frequentes em 2018. Com poucos estádios liberados ao público, Nova Cidade, Mesquita e Queimados se viram obrigados a dividir o mesmo estádio, o Joaquim de Almeida Flores, em Nilópolis, para mandarem seus jogos. Quando todas atuavam como mandantes na mesma rodada, o malabarismo era inevitável. O auge foi atingido em 17 de agosto, véspera do duelo entre Mesquita e Juventus. As equipes já tinham jogado na quinta-feira e deveriam se enfentar no sábado, o que é proibido pelo Regulamento Geral de Competições, que exige um intervalo mínimo de 60 horas entre as duas partidas. O regulamento específico da Terceirona, porém, permite uma exceção em casos de força maior. No fim, pesou a palavra do RGC, mas os clubes só foram notificados do adiamento às 20h de sexta-feira, faltando apenas 19 horas para o jogo e com as despesas do jogo já pagas pelo time visitante.

10. "Sufoco" com trajeto do navegador
Em 9 de setembro, Juventus e Queimados se enfrentariam no Joaquim Flores, mas a partida começou atrasada em 15 minutos porque um enfermeiro da equipe mandante se atrasou. Quando a bola rolou, vitória queimadense por 4 a 1. Mas o que mais chamou atenção foi a razão do atraso do enfermeiro: em julgamento no Tribunal de Justiça Desportiva (TJD-RJ), Hugo Mahmud alegou que a empresa privada, contratada pelo Juventus para levá-lo ao estádio, não pôde buscá-lo em casa, no Engenho de Dentro. Assim, ele pegou sua moto e se deslocou por conta própria, guiado pelo aplicativo de celular Waze. No meio do caminho, porém, se viu dentro de uma favela em Costa Barros e avistou homens armados de fuzil. Assustado, passou a pedir indicações a populares, o que contribuiu para que se atrasasse. No fim, o Juventus foi multado em R$ 3 mil pela demora no começo do jogo.


9. Campo destruído e orientação da arquibancada
O Marrentão, estádio conhecido recentemente, pelo péssimo estado de seu gramado, protagonizou um espetáculo triste durante um dos jogos da Série B2 deste ano. Após uma forte chuva, o campo de Xerém recebeu o duelo entre Futuro Bem Próximo e Campos, mas estava impraticável, com muitos buracos e mais lama e terra do que propriamente grama. Curiosamente, a partida acabou sendo a que mais teve gols em todo o campeonato, com a vitória do Roxinho por incríveis 9 a 0. Um abatido Futuro Bem Próximo parecia sem qualquer comando e até torcedores que estavam nas arquibancadas, sem qualquer relação com o clube, davam seus pitacos junto à comissão técnica para tentar orientar os jogadores em campo.

8. Presidente e professor
Uma das maiores surpresas do campeonato deste ano, sem dúvida, foi o Bela Vista. O veterano clube de Niterói, nome constante em Terceironas, viveu um campeonato de altos e baixos. Do primeiro turno sem nenhuma vitória e um rebaixamento quase certo a uma segunda metade de grandes resultados, fuga do descenso e quase classificação para as semifinais do segundo turno. A mudança mais marcante na equipe foi a entrada de Dico como técnico, em substituição a Branco. O detalhe é que Dico é ninguém menos que o presidente do clube. O próprio dirigente reconheceu que, após a saída do treinador, se reuniu com a comissão técnica e montou um grupo de trabalho para tocar o futebol, com todos de uma vez. A fórmula deu certo e o time se garantiu, por mais um ano, na terceira divisão.

7. RSP com mandos diferentes
O Rio São Paulo acabou se tornando o clube mais itinerante da Série B2 em 2018. O clube do Campinho, Zona Oeste do Rio, fechou um convênio para transferir suas atividades para Barra Mansa, no Sul Fluminense. Porém, as constantes viagens e deslocamentos não ficaram só por aí: o clube rodou o estado do Rio de Janeiro por muitas vezes apenas para mandar seus jogos. Num primeiro momento, a equipe jogou em Nilópolis; na sequência, mandou jogos no Estádio de Los Larios, em Xerém, atuando depois em Saquarema, no Lourival Gomes de Almeida. A casa definitiva, a partir do segundo turno, foi o Jair Toscano de Brito, em Angra dos Reis, o que fez o Alvinego somar nada menos que quatro mandos de campo diferentes na mesma competição.

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6. Uma "boquinha" em hora ruim
Em 23 de setembro, na última rodada do segundo turno, Campos e São Cristóvão atuavam no Estádio Ângelo de Carvalho. Após o intervalo, as equipes voltaram para o campo, mas quando a arbitragem já se preparava para trilar o apito inicial, ele não foi ouvido. Todos, então, voltaram os olhares para a beira do campo, procurando alguma eventualidade com a equipe médica. E estavam certos. Os enfermeiros deixaram a ambulância após o fim do primeiro tempo e foram até uma padaria, na calçada contrária à entrada do estádio, para fazer um lanche. Tiveram que ser buscados às pressas, em plena rua, para que voltassem para dentro do estádio e o jogo pudesse ser reiniciado. Em campo, o Campos ganhou pelo placar de 2 a 1.

5. Estacionado em local inadequado
Na mesma rodada final do returno – aliás, pródiga em histórias –, o Rio São Paulo recebeu o Araruama em um jogo que valia a manutenção na Série B2. Por ser a rodada final, havia uma recomendação de que os delegados de todos os jogos ao redor do estado mantivessem contato constante para garantir que as partidas começassem exatamente ao mesmo tempo, para garantir que nenhum time fosse beneficiado ao terminar seu jogo já sabendo de outros resultados. Porém, isso não foi possível na partida, em Angra dos Reis, por uma razão: havia um helicóptero estacionado em pleno campo. A chegada dos jogadores e da arbitragem não mudou o quadro, o que gerou apreensão e até a possibilidade de um adiamento. Minutos depois da hora marcada para o jogo, porém, o problema foi resolvido. A aeronave pertencia ao Corpo de Bombeiros e aterrisou no campo para realizar um atendimento médico próximo ao Estádio Jair Toscano. O jogo começou atrasado em 23 minutos e terminou empatado em 0 a 0.

4. Abelhas em campo
Mais uma de um já histórico 23 de setembro. Em Nilópolis, Juventus e Casimiro de Abreu se enfrentavam sob forte calor, em uma tarde de domingo. No começo da segunda etapa, pouco depois da volta dos times dos vestiários, a partida foi paralisada por causa de um enxame de abelhas que passou por cima do gramado. Após os gritos de alguns poucos torcedores, arbitragem e jogadores se jogaram no gramado para não correrem o risco de serem picados pela nuvem de insetos, que demorou pouco mais de um minuto para cruzar todo o campo. O susto acabou sendo um dos momentos mais empolgantes do jogo, que terminou com vitória juventina por 4 a 0.

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3. "Camarote" e malabarismo nilopolitano
O Estádio Joaquim Flores parece ser mesmo o palco das grandes histórias da Terceirona de 2018. A semifinal geral da Série B2, entre Nova Cidade e Pérolas Negras, foi realizada por lá, e representava a melhor chance do time da casa de conquistar um acesso depois de 30 anos sem subir de divisão. Como esperado, o estádio estava lotado naquele ensolarado 20 de outubro. No entanto, o "Joaquinzão" não tem arquibancadas – apenas algumas cadeiras avulsas, herança do velho Maracanã – o que fez com que centenas de pessoas se amontoassem em volta do alambrado que separa o campo da área destinada aos torcedores. Mas houve quem fosse corajoso se decidisse se arriscar, como um torcedor que se pendurou em cima da entrada de um dos banheiros (foto acima) para ter uma visão melhor do que se passava em campo. A estratégia deve tê-lo feito feliz, já que o Nova Cidade ganhou por 4 a 0 e conquistou, ao menos no campo, o direito de jogar a Série B1 em 2019.

2. Quem é que desce?
Quando se falar na Terceirona de 2018, será necessário falar nos enormes imbróglios judiciais que a cercaram. Embora não sejam nenhuma novidade no meio das divisões inferiores do Rio de Janeiro, a edição deste ano parece ter superado qualquer evento anterior, ao menos quando se fala na frequência das mudanças de panorama. O primeiro clube a passar por este problema, na parte de baixo da tabela, foi o Rio São Paulo, que perdeu seis pontos pela escalação irregular do zagueiro Thor. O clube, que brigava pelo acesso, passou a ter que lutar contra o rebaixamento e foi a três instâncias para tentar manter os 19 pontos que ganhou em campo: perdeu em todas. Ao fim da última rodada, o time ficou em penúltimo, com 13 pontos, caindo para a Quartona. Porém, o São Cristóvão também foi denunciado pela escalação irregular do volante Willian Souza, caindo de 15 para nove pontos e tomando o lugar do Rio São Paulo na zona de rebaixamento. O caso, no entanto, ainda será julgado pelo Pleno do Tribunal de Justiça Desportiva (TJD-RJ) e pode ter desdobramentos ainda maiores caso chegue à última instância, o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD). Assim, o descenso, em princípio, só conta com o Futuro Bem Próximo.

1. Quem é que sobe?
Se a situação no fundo da tabela já parece absurda, o que acontece na outra ponta da classificação deixaria os mais céticos de queixo caído. O Maricá, dono da segunda melhor campanha geral, foi denunciado por escalar indevidamente o atacante Felipe Zuca, artilheiro isolado do campeonato, com 11 gols marcados. A alegação é de que Zuca atuou o campeonato inteiro com um contrato de amador, mesmo tendo nascido em 1997, tendo portanto 21 anos incompletos. Amparado pela Lei Pelé, no entanto, o Maricá se defendeu, afirmando que tal possibilidade não era ilegal. O caso foi para os Tribunais e o campeonato foi paralisado pela Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FFERJ) logo após a última rodada do returno. Na primeira instância, o clube foi absolvido, mas acabou punido, na segunda, com a perda de seis pontos. Isto tiraria o Maricá da luta pelo acesso, mas ainda havia uma última instância por recorrer, o STJD. A FFERJ chamou para si a responsabilidade e decidiu retomar o campeonato do ponto em que parou. O returno foi vencido pelo Pérolas Negras, o que confirmou a eliminação do Maricá, enquanto Nova Cidade e Campos conquistaram, mais tarde, o acesso. Dois dias antes da finalíssima entre os dois clubes, porém, o choque: o Maricá tornou a ser absolvido no STJD, a última instância esportiva possível, o que deixou um grande ponto de interrogação no campeonato e a dúvida sobre o que será feito com um acesso já conquistado em campo, enquanto uma equipe ainda tem, por direito, a possibilidade de subir. Uma demora que parece não ter fim.

Fonte: FutRio