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Especial "Campeonato Fluminense de futebol" resgata a origem do esporte no Rio


A partir desta sexta-feira (21/02), o GF ESPORTE traz uma série  de matérias sobre a história do extinto Campeonato Fluminense de futebol profissional. O resgate do futebol realizado no antigo estado do Rio de Janeiro, antes da fusão, em 1975. A série é baseada no Livro "O ESTADO ESQUECIDO: A HISTÓRIA DO CAMPEONATO FLUMINENSE DE FUTEBOL PROFISSIONAL", de Aristides Leo Pardo.


Como primeiro assunto o início de tudo no futebol do antigo Estado. Hoje, quando um jovem do estado do Rio é perguntado sobre qual o time de futebol de sua preferência, logo indicará, na ponta da língua, um dos quatro grandes clubes da cidade do Rio de Janeiro (Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco da Gama) e com raríssimas exceções você ouvirá como resposta um clube de Campos, Nova Friburgo, Volta Redonda ou Niterói.

A quase totalidade não sabe nem da existência de times de suas
cidades, que marcaram época e que travavam verdadeiros duelos nos sempre lotados estádios Fluminenses, e embora sejam fatos de uma fase áurea do esporte bretão no antigo estado, muito pouco se deixou registrado para a posteridade.

A maioria dos jogadores desta época era composta por filhos de
fazendeiros, médicos, advogados, entre outras classes elitistas, ou por estrangeiros que aqui trabalhavam, e não eram poucos, já que o advento da ferrovia, o telégrafo, a companhia de eletricidade e de transporte entre outras em ascensão, dependia da mão de obra (e capital) vindos da Europa. Neste início, o futebol era apenas um entretenimento, pois os pais queriam ver seus filhos doutores, mas os garotos só queriam saber do esporte bretão.

Os menos abastados iam se interessando aos poucos pelo novo
jogo e paulatinamente foram entrando no esporte que era “dos riquinhos”, conforme a expressão utilizada na época, e logo encantou a gente brasileira,que foram formando seus escretes. Os grandes empresários notaram a força do futebol e passaram a utilizá-lo como meio de despolitizar os operários, que ao se engajarem na prática futebolística em seu parco tempo de folga,
deixavam de pensar em questões relativas ao trabalho, que além de ter carga horária avançada, pagava mal e não dava suporte necessário para seu desenvolvimento.

Por isso, desde os primeiros times surgidos no estado, o apoio dos
patrões se faz notar claramente, em Campos dos Goytacazes que, com a Capital do antigo Estado do Rio, Niterói, foram as cidades onde tiveram a presença de maior número de clubes e os mais importantes também, fora da cidade do Rio, onde os futebolistas foram impulsionados pela elite canavieira, que fizeram nascer mais de 20 associações que entrariam na era profissional do futebol brasileiro. 

Em Petrópolis, a indústria têxtil foi a grande impulsionadora, em Volta Redonda, o clube teve apoio da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Mendes, houve um time chamado Frigorífico e girava em torno do mesmo, de grande destaque na região, em Niterói foram diversos clubes oriundos de empresas que tiveram apoio maciço do patronato.

Uma curiosidade desses times formados por classes menos
abastadas é a formação do Campos Atletic Association, em 26 de outubro de 1912, que apesar do nome pomposo, que debochavam dos clubes aristocráticos, foi fundado somente por operários negros e mulatos e isso é mostrado em seu escudo, que tem as cores roxa e preta, representando respectivamente o mulato e o negro, raças predominantes entre os fundadores e adeptos iniciais. Era, junto com o Goytacaz, o representante das classes populares campistas.

Outra façanha do Campos e esquecida no passado, é que o clube foi o primeiro a contar com negros e ser campeão, isso em 1918,
bem antes do Vasco da Gama, na década de 1920, mas esse fato é
completamente ignorado na contemporaneidade.


Assim, vemos mais uma vez a eterna luta de classes existente em
todos os setores da sociedade, que sempre verá as contradições e os conflitos envolvendo empregados e patrões, ricos e pobres, opressor e oprimido, enfim vencedores e vencidos, como fala Debord (1987, p.89) que: “A apropriação social do tempo e a produção do homem pelo trabalho humano se desenvolvem em uma sociedade dividida em classes”


Com a proliferação de clubes, é criada em 08 de julho de 1905, a
Liga Metropolitana de Futebol (LMF), que no primeiro momento, também abrigava clubes de Niterói. A LMF trocou seu nome dois anos depois para Liga Metropolitana de Esportes Terrestre e posteriormente foi dividida em duas, originando dois campeonatos distintos na cidade do Rio de Janeiro, agora já sem a participação dos times niteroienses.

A Federação Fluminense de Desportos (FFD) foi fundada em 07 de
janeiro de 1925 em Niterói, mas somente em 28 de dezembro de 1951 foi criada a Divisão de Futebol Profissional (DEP) e teve como clubes fundadores:

Adrianinho A.C. (Engenheiro Paulo de Frontim), Barra Mansa F.C. (Barra Mansa), Central E.C. (Barra do Piraí), Clube dos Coroados (Marquês de Valença), Esperança F.C. (Nova Iguaçu) e Fonseca A.C. (Niterói), tendo os clubes de Campos se filiado ao DEP no ano seguinte.

A maioria dos clubes que disputavam o antigo campeonato do
Estado do Rio deixou de existir, profissionalmente, ou se transformaram em clubes amadores, alguns em clubes apenas sociais e outros simplesmente fecharam as suas portas.


Durante os anos de 1942 até 1946, os campeões das ligas
municipais, representavam sua cidade no campeonato Fluminense de seleções, que foi o embrião do campeonato estadual, os campeões foram:

1942 – Icaraí (Niterói), 1943 – Royal (Barra do Piraí), 1944 – Icaraí, 1945 – Petropolitano (Petrópolis), 46 – Serrano (Petrópolis).

O futebol neste estado, hoje praticamente esquecido, só começou
efetivamente a partir de 1952, ano em que o profissionalismo foi oficialmente implantado em todo o Estado, mas sempre esbarrou nas ligas campista e niteroiense, que possuíam seus já tradicionais campeonatos locais e não disputavam o campeonato estadual, por isso é comum vermos em algumas relações mais de um campeão.

Abaixo segue, entre parênteses, o campeão do estado e os
vencedores campistas e niteroienses de cada ano, respectivamente.
Os campeões fluminenses até a fusão do estado foram: 
1952 – Adrianinho (Engenheiro Paulo de Frontim)
53 – Barra Mansa (Barra Mansa), (Goytacaz e Fonseca)
1954 – Não Houve, (Americano em Campos e o campeão de Niterói é desconhecido)
55 – Frigorífico (Mendes), (Goytacaz, com Cruzeiro e Fonseca dividindo o título da então capital do estado)
56 – Coroados (Marquês de Valença), (Campos e Fonseca)
57 – Não Houve
58 – Manufatora (Niterói)
59 – Fonseca 
60 – Não Houve
61 – Fonseca e Rio Branco
62 – Fonseca e Rio Branco
63 – Goytacaz
64 e 65 – Americano
66 e 67 – Goytacaz
68 e 69 – Americano
70 e 71 – Central (Barra do Piraí)
72 e 73 – Barbará (Barra Mansa)
74 – Sapucaia
75 – Americano
76 – Não Houve
77 – Manufatura
78 – Goytacaz.

Também foi realizado um torneio paralelo para apontar o
representante do Estado do Rio na então recém-criada Taça Brasil, cujo campeão garantia a vaga brasileira na Taça Libertadores da América e os campeões Fluminenses foram: 

1959 – Manufatura (Niterói)
1960 – Fonseca
1961 – Fonseca (Niterói)
1962 – Rio Branco (Campos)
1963 – Fonseca (Niterói)
1964 – Goytacaz (Campos)
1965 – Eletrovapo (Niterói)
1966 – Americano (Campos)
1967 – Goytacaz (Campos)
1968 foi o último ano que uma equipe Fluminense disputou o torneio nacional e o Goytacaz foi novamente o representante do Estado na competição.

Outra curiosidade do futebol Fluminense é que a primeira partida da América do Sul realizada em horário noturno aconteceu no dia 5 de setembro de 1914, entre as equipes do Villa Isabel, um dos grandes times do Rio de Janeiro na época, contra um selecionado da cidade de Campos, que tinha como treinador, Júlio Nogueira, o primeiro jornalista a exercer esta função no Brasil.

A partida foi disputada em um campo dotado com 12 lâmpadas de
3.000 velas cada, no antigo Jardim Zoológico, situado na Rua Visconde de Santa Isabel esquina com Barão do Bom Retiro, na então Capital Federal, (daí ser usual até hoje, o termo “feras” para os jogadores de futebol). Este jogo teve a presença do senador da república, o campista Nilo Peçanha, o embaixador Álvaro de Teffé, além de diversas autoridades do então DF, tendo o placar final
de 4 x 0 para o time da casa.

Neste sábado (22/02), o Especial prossegue no GF ESPORTE, com os times "fluminenses" na Taça Brasil.

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