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FALTAM 134 DIAS - Pequim 2008: Bom dia, China

O Ninho de Pássaro, o Cubo de Gelo e a China grandiosa
Dando sequência ao Especial de contagem regressiva para os Jogos Olímpicos 2020, nesta quarta (11/03) o GF ESPORTE traz os Jogos Olímpicos realizados em 2000 faltando 136 dias para edição 2020 que será em Tóquio, no Japão. Diariamente iremos contar todos os preparativos para o maior evento esportivo do mundo. A história dos Jogos, as modalidades, cada uma das edições já realizadas, os brasileiros, as medalhas, e todos os detalhes da edição 2020 que irá deixar os brasileiros com o fuso horário trocado, já que a maioria dos eventos esportivos ocorrerá durante a madrugada no Brasil.

Na terceira edição em que os Jogos foram para a Ásia, o Ocidente era forçado a olhar para o outro hemisfério de um modo diferente, quiçá prestando reverência. Se em Seul 1988 a Coreia do Sul exibia suas qualidades de “Tigre Asiático”, o contexto em torno da China, 20 anos depois, era muito maior. Para ficar na metáfora e emprestando um título de blockbuster, estávamos falando aqui de um Tigre e também de um Dragão, todos juntos.
O logo estilizado jīng, que significava, sugestivamente,
Era a vez de o país mais populoso do mundo mostrar, em seu processo de abertura, toda a sua incipiente grandiosidade, de se anunciar como verdadeira potência econômica e, por consequência, política. À época, ainda estava abaixo dos vizinhos japoneses e bem distantes dos Estados Unidos. Em termos de projeção, porém, sustentava números otimistas, e, nesse sentido, os Jogos vieram como uma espécie de prenúncio de novos ventos, ou melhor, de tempos.

Pois todo crescimento cobra seu preço. Para a sociedade chinesa e Pequim especificamente, você está falando de diversas consequências, como o questionamento a respeito de direitos trabalhistas, competitividade honesta de preços, choque cultural entre o velho e o novo e, dentre tantos outros fatores, a qualidade de vida. Você estava falando de nuvem de investimento e de poluição, mesmo, em volta de instalações suntuosas como o estádio Ninho de Pássaro e sua cara-metade Cubo d’Água.
Manifestantes em San Francisco obstruem via de revezamento da tocha em abril de 2008
Se, hoje, por um lado, menos de dez anos depois, esses complexos esportivos já lutam para manter sua relevância numa metrópole como Pequim, por outro não há como negar também que ambos causaram grande impacto visual e estrutural quando colocados em funcionamento na Olimpíada. Estavam incluídas num total de 37 instalações, das quais 12 foram construídas especialmente para a competição.

O desenvolvimento chinês não era só superficial, no entanto. Em campo, na quadra, na água ou na pista, seus atletas também se esmeraram para atender às altas expectativas do Partido, que investiu pesado na formação de atletas. Conseguiram e impuseram a primeira derrota aos Estados Unidos no quadro de medalhas desde Barcelona 1992, quando a CEI (Comunidade dos Estados Independentes, com os resquícios da União Soviética) realizou a façanha. Foram 51 ouros para os atletas da casa, contra 36 dos norte-americanos. Uma surra, e tanto, que como símbolo supera o fato de os EUA terem somado mais pódios (114 a 100).

O Brasil também fez um bom investimento, de acordo com seus padrões. Era a primeira Olimpíada que contava com verba direcionada pela Lei Piva. A quantia superior a R$ 1 bilhão, no entanto, não foi o suficiente para evitar um retrocesso em termos de resultados. Se o total de medalhas em relação a Atenas 2004 saltou de 10 para 15, a quantidade de ouros caiu de cinco para três

Mais de 4,7 bilhões pessoas assistiram a tudo isso, no conforto do lar. Era a globalização em seu ponto máximo, já propalada – e cornetada, claro – pelas redes sociais. Tudo era transmitido com mais velocidade, o que ajuda a entender também a onda de protestos que o revezamento da tocha olímpica enfrentou em seus 130 dias de caminhada. Aquela que era para ser conhecida como a “Jornada da Harmonia” ficou muito longe disso, com diversos protestos voltados às infrações de direitos humanos no país, com o Tibete sendo uma grande bandeira, sendo realizados em seu caminho, principalmente durante os quatro meses de trajeto no exterior. Ali fora, por maior que fosse o atrativo de seu mercado e sua influência, os atos não poderiam ser controlados, nem abafados.

Fogo na pira! | 10 fatos que marcaram aqueles Jogos
1 – Dentre os 639 atletas inscritos pela China naquela edição – contra 596 dos Estados Unidos –, aquele que estava eleito para ser o Grande Herói Nacional era o velocista Liu Xiang, que defendia seu ouro olímpico e mundial nos 110m com barreiras. Todo super-herói, porém, tem limites. Xiang estava lidando com uma lesão no tendão de Aquiles, algo grave para qualquer mero mortal, quanto mais para um corredor. Ele chegou a se inscrever na prova, mas, na eliminatória, percebeu que não tinha condição alguma de seguir adiante. Da pista ele foi direto para os vestiários, deixando o Ninho de Pássaro, antes dos choros, completamente emudecido. Realmente não se ouvia um pio no estádio.

2 – As competições de hipismo foram realizadas em Hong Kong, que ainda sustentava seu próprio Comitê Olímpico, a ponto de ter inscrito 34 atletas nas provas em geral. Foi, então, a terceira vez na história dos Jogos em que suas competições foram divididas entre dois órgãos e, curiosamente, a segunda do hipismo. Com a diferença de que, em 1956, havia uma enorme dificuldade logística no deslocamento rumo a Melbourne, devido a uma quarentena de seis meses pré-embarque imposta pela Austrália. Desta forma, Estocolmo foi premiada como adendo olímpico.

3 – Em termos de tensões políticas, para os chineses, uma das poucas questões remetia a Taiwan (ou República da China, diferente de República Popular da China, que é a China-China de fato). A ilha vive uma situação de pura ambiguidade na diplomacia internacional, sendo reconhecida como um estado independente, mas não oficialmente. Para o governo chinês, era inaceitável que se apresentassem como “República da China”. A alternativa foi o nome curinga de “Taipei Chinesa”, que carrega o nome da capital da ilha. No desfile das nações na cerimônia de abertura, para evitar maior confusão, os organizadores também deram um jeito de colocar a República Centro-Africana desfilando entre Taiwan e Hong-Kong. Se tudo isso parece muito confuso, acreditem: é assim, mesmo, com uma situação que exige malabarismo de diplomatas mundo afora.

4 – As Coreias chegaram a estudar a possibilidade de competirem de modo unificado em Pequim 2008. Mas como encontrar um meio termo entre as demandas do Norte e do Sul? Como dividir a delegação de modo justo? No final, cada uma ficou em seu canto, separadas até mesmo no desfile, algo que não havia acontecido em Sydney 200 e Atenas 2004.

5 – Deixemos as questões extracampo de lado e falemos de Lionel Messi, oras. Sim, o então jovem craque argentino, de apenas 21 anos e figura em ascensão no Barcelona, já liberto das asas de Ronaldinho Gaúcho – em 2007, foi eleito o terceiro melhor jogador do mundo. Ao lado de Javier Mascherano, Sergio Agüero, Ángel Di María e outros nomes que valeriam, no futuro, centenas de milhões de dólares, o baixinho liderou a seleção argentina rumo ao ouro olímpico. Então quem disse que ele nunca venceu nada com a camisa albiceleste?

6 – Se o assunto são as Olmpíadas, porém, por mais fama que Messi viria a conquistar nos anos seguintes, não dá para considera-lo de modo algum como o principal nome daquele evento. Aí o melhor a se fazer era desviar os olhares para o Cubo d’Água. Depois de morrer na praia em 2004 (com o perdão do trocadilho), o nadador norte-americano se consagrou como o maior campeão olímpico em uma só edição. Ele simplesmente venceu todas as oito provas que disputou, superando os sete ouros de seu compatriota Mark Spitz (Munique 1972).

7 – Em termos de carisma, porém, Phelps tinha um concorrente imbatível fora d’água: Usain Bolt, que tomou o mundo do atletismo de assalto naquele ano. Para deixar bem claro: havia um burburinho em torno do jamaicano com as passadas mais largas que as competições de velocidade já viram, mesmo que ele fosse praticamente um novato na prova de 100m. Mas poucos podiam imaginar o que estaria por vir. Na final, ele se tornou o primeiro homem da história a correr a distância abaixo dos 9s7, cravando especificamente 9s69, com a maior naturalidade do mundo, soltando nos metros finais e com uma sapatilha desamarrada. Ele fez trovejar no estádio. Depois da tempestade, ele ainda venceu os 200m com novo recorde mundial e o revezamento 4x100m. Virá ao Rio em busca do tricampeonato em todas essas provas.

8 – Coube à judoca brasiliense Ketleyn Quadros abrir a porteira. Ela foi a primeira mulher brasileira a conquistar uma medalha olímpica individual, na categoria até 57kg, no dia 11 de agosto de 2008. Para tanto, precisou vencer cinco lutas, passando pela repescagem. Um resultado que veio para confirmar a intuição da pequena Ketleyn, que, quando criança, cabulava os treinos de natação no Sesi Ceilândia para às aulas de judô na instituição. Dias depois, aproveitando o momento propício para fazer história, Maurren Maggi foi lá e ganhou o ouro no salto em distância. Aos 32 anos, já veterana, ela dava a volta por cima depois de uma suspensão de dois anos por ter sido flagrada num exame antidoping.  Em sua defesa, alegou que a substância clostebol estava contida num creme cicatrizante que havia utilizado. No Brasil, a tese foi validada e resultou em sua absolvição. Em âmbito internacional, todavia, a IAAF refutou as provas apresentadas, tirando-a de Atenas 2004.

9 – Quando confrontado com a história de Ketleyn Quadros, é curioso que Cesar Cielo tenha optado pelo caminho contrário: saiu do judô (e do vôlei) para as piscinas, por influência da mãe, Flavia. O garoto progrediu rapidamente, ainda mais tendo o contato com campeões como Gustavo Borges, um de seus primeiros mentores, e Fernando Scherer, que interveio em sua carreira já como profissional. Em 2008, superou ambos, sendo o primeiro nadador brasileiro a ganhar o ouro olímpico, nos 50m livre. Ainda ganharia o bronze pelos 100m livre, voltando para casa como uma superestrela.

10 – Para fechar a contagem, temos um exorcismo, do vôlei feminino brasileiro e seus múltiplos fantasmas. Primeiro foram as peruanas. Depois, cubanas. Nos anos anteriores à Olimpíada, apareceram as russas. Em meio a algumas derrotas doloridas, a seleção havia conquistado duas medalhas de bronze nos Jogos, em Atlanta 1996 e Sydney 2000, algo que não se pode desprezar de modo algum. Mas quando esses resultados eram comparados com os dos rapazes, aí elas tinham um problema. Em Pequim, enfim chegara a hora de comemorar, sob o comando de José Roberto Guimarães, o mentor do ouro olímpico masculino lá nos idos de Barcelona 1992.

Nesta quinta (11/03), o GF ESPORTE irá destacar os Jogos Olímpicos em 2012, que foram realizados na Inglaterra.

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