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Jogos de Tóquio em 2021 quebram ritual e não deveriam se chamar Olimpíada, diz pesquisadora

Chama olímpica foi acessa em 19 de março, na Grécia Foto: Aris Messinis/POOL / REUTERS
Com o adiamento dos Jogos Olímpicos de Tóquio, que devem ocorrer até o verão de 2021, quebra-se uma das tradições que ligam a olimpíada moderna aos Jogos Antigos: o calendário. Mesmo quando o evento não ocorreu (1916, 1940 e 1944), por causa das duas grandes guerras, o período de quatro anos entre um evento e outro foi respeitado.

— Para o público leigo, vai ser olimpíada. Para quem é do campo, que conhece tradição e documento, a gente sabe que se quebrou um ritual. Quebrou uma tradição e a consequência disso é que os Jogos de 2020 entram para a História como os Jogos que não aconteceram – afirmou a professora Katia Rubio, coordenadora do grupo de estudos olímpicos da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP).

— Me perguntaram: e se não acontecesse, os atletas iriam perder? Veja, a Maria Lenk perdeu a oportunidade de disputar uma Olimpíada por causa do cancelamento.  É uma questão histórica, mas o que prevalece nesse momento é o negócio que não se pode perder. Em 1916, 1940 e 1944, não existiam tantos interesses em jogo como se tem no presente.

Olimpíada é o nome dado ao intervalo de quatro anos entre as edições dos Jogos Antigos. No fim do século 19, quando o francês Pierre de Coubertin decidiu reviver os Jogos Olímpicos, a periodicidade foi uma das premissas resgatadas, começando em Atenas-1896. Pela Carta Olímpica, uma “olimpíada” começa em 1º de janeiro do primeiro ano e termina em 31 de dezembro do quarto ano – ou seja, no último dia de 2020, pelo ciclo atual.

Mesmo quando a competição de fato não ocorreu, durante as duas guerras mundiais, a olimpíada foi contada. Para o movimento olímpico, Berlim-1936 foi a 11ª edição e Londres-1948, a 14ª, mesmo que a 12ª (Tóquio-1940) e a 13ª (Londres-1944) não tenham acontecido. Os Jogos de Tóquio serão o 32º, número que o Comitê Olímpico Internacional (COI) preservou na carta em que anunciou o adiamento.

— O ritual está quebrado. É uma quebra e o que a gente terá é uma competição realizada pelo COI, mas que deixa de ser olimpíada. Para ser Jogos Olímpicos, esse teria de ser adiado e um novo feito em outro momento. Fica claro que o que está se preservando é o negócio e, não, uma tradição.

Mesmo que sejam realizados em 2021, o evento continuará Tóquio-2020, uma vez que é marca registrada e materiais de divulgação e documentos já foram confeccionados com este nome.

JOGOS ADIADOS
Não é a primeira vez que os Jogos Olímpicos de Tóquio são afetados por fenômenos externos. Escolhida como sede da edição de 1940 quatro anos antes da abertura, Tóquio venceu a eleição e se tornaria a primeira cidade fora do Ocidente a receber as competições. Mas eclodiu em 1937 a Segunda Guerra Sino-Japonesa, disputa entre o Império Japonês e a China, que resistia às tentativas de ocupação de seu território pelo Exército nipônico, o que já começou a causar turbulências na preparação olímpica da capital japonesa. Já em 1938, o Legislativo japonês questionava a realização do evento em meio ao conflito.

Os arquivos do "New York Times" da época mencionam “atitudes indecisas” em relação aos Jogos por parte dos organizadores. Ainda assim, e com o objetivo de usar a Olimpíada para fazer propaganda política como Hitler tinha feito na edição anterior, em Berlim, os japoneses insistiram na capacidade de seguir o planejado. A intenção não foi suficiente e a desistência foi anunciada ainda em 1938.

Estocolmo, em 1912, também foi adiada por duas semanas. Marcada inicialmente para 22/6, só aconteceu duas semanas depois, dia 6/7. Tóquio-2020 é a primeira vez que a Olimpíada sai do seu ano original.

O adiamento também mostra que os Jogos Olímpicos são afetados sempre a cada 40 anos. A de 1940 foi cancelada pela Segunda Guerra. Em Moscou-1980, por causa da guerra no Afeganistão e tenso momento de Guerra Fria, houve boicote de 66 países, entre os quais Estados Unidos ou Japão.

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