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Como Liverpool se transformou em vilão na pandemia do novo coronavírus

Último jogo do Liverpool foi derrota para o Atlético de Madri na Liga dos Campeões Foto: CARL RECINE / Action Images via Reuters
A crise mundial causada pela pandemia do novo coronavírus faz o Liverpool flertar com um remake do clássico “O Médico e o Monstro”, filme baseado em romance de Robert Stevenson sobre o duelo das personalidades boa e má de Dr. Jekyll e Mr. Hyde. A mesma camisa vermelha que gerou empatia depois que o histórico e certo título inglês ficou ameaçado pela paralisação do futebol agora provoca fortes críticas ao realizar manobra financeira para amenizar seus prejuízos no período de quarentena. Resta saber qual das duas versões vai prevalecer depois que a crise passar.

Por ora, é o monstro, e não o médico, que a comunidade do futebol encara com ar de reprovação. Tudo porque o Liverpool, apontado pela revista Forbes como o oitavo clube mais rico do mundo em 2019, estimado em R$ 11,6 bilhões, se aproveitou de uma ajuda que o governo britânico disponibilizou para as empresas manterem seus funcionários empregados durante a crise. Os Reds se comprometeram a não demitir ninguém, mas pagarão apenas 20% dos salários no período. Os outros 80% serão pagos com dinheiro público, que deveria ser usado preferencialmente por pequenas e médias empresas que correm o risco de falir na pandemia.

De acordo com reportagem do jornal “Liverpool Eccho”, outros membros da Premier League, como Norwich, Bournemouth e Newcastle, fizeram o mesmo. O Tottenham, de Londres, também, e sofreu críticas por isso. Mas nada comparado aos ataques que o clube mais poderoso da Inglaterra na atualidade vem sofrendo, pouco mais de um mês depois de anunciar um lucro de R$ 275 milhões na temporada 2018-2019.

“Mesmo antes da decisão (sobre entrar no programa de ajuda do governo), havia um compromisso coletivo nos níveis mais altos do clube, com todos trabalhando em busca de uma solução que garanta os empregos dos funcionários durante essa crise sem precedentes”, disse o Liverpool em nota.

Em lua de mel com o momento do time, torcedores foram às redes sociais criticar a diretoria do Liverpool depois que a manobra veio à tona. Funcionários, sob condição de anonimato, reclamaram da atitude da diretoria à imprensa. O ex-zagueiro Jamie Carragher, segundo jogador com mais partidas pelo clube (737), utilizou o Twitter para apontar o contraste que assombra o Liverpool atual:

“Jürgen Klopp mostrou compaixão com todos desde o começo da pandemia, os jogadores estão profundamente envolvidos nas negociações para se reduza parte dos salários. Mas com isso (entrada no programa de ajuda do governo), todo o respeito e boa vontade são perdidos”.

Apesar da legalidade da medida, o caso já é visto como um histórico gol contra de relações públicas da Fenway Sports Group, empresa que é dona do Liverpool, justamente por ofuscar em boa parte as ações que espontaneamente colocavam o clube em posição de destaque na crise.

A dois jogos do sonho
Além dos pontos listados por Carragher, os gestos de caridade de integrantes do elenco com os mais necessitados e a iniciativa do capitão Henderson, de mobilizar a Premier League para a realização de uma grande doação para o Sistema Nacional de Saúde (NHS, em inglês), estão hoje em segundo plano diante da decisão que, para os mais pessimistas, pode estimular os outros grandes da Inglaterra — Manchester United, Manchester City, Arsenal e Chelsea — a seguirem o mesmo caminho moralmente questionável.

Por esses dias, lembra-se pouco do Liverpool que, sendo um dos melhores times do mundo, estava a apenas duas vitórias de confirmar seu primeiro título da Premier League — a competição é disputada desde a temporada 1992-1993 e seu troféu é atualmente almejado pelo clube mais até do que a Champions.

O último jogo antes da paralisação do calendário, contra o Atlético de Madrid, em casa, terminou com a eliminação ainda nas oitavas de final da Liga dos Campeões e um técnico Jürgen Klopp transbordando preocupação. Geralmente gentil, foi flagrado pelas câmeras da TV recusando nervosamente os acenos dos torcedores para que tocassem as mãos. Já se sabia àquela altura que o contato físico era desaconselhável, mas ainda assim permitiu-se que 50 mil pessoas se aglomerassem no Anfield para assistir à partida. Hoje, cogita-se que o jogo tenha potencializado o avanço do novo coronavírus na Inglaterra.

Com o estrago da pandemia já feito no mundo todo, a Premier League adota cautela. Na última sexta-feira, emitiu comunicado afirmando que não tem previsão de quando a competição será retomada. A falta de uma data prolonga a angústia do Liverpool, que nunca esteve tão próximo e ao mesmo tempo tão distante do título tão desejado quanto merecido.
Fonte: O Globo

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