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História do futebol campista: terceiro capítulo - a bola rola em Campos

Enquanto a bola não rola no estadual, Botafogo-PB acerta amistoso ...
Dando sequência ao Especial, o GF ESPORTE continua a falar sobre a história do futebol da cidade de Campos dos Goytacaes em 18 capítulos. As matérias tem por base o trabalho realizado por Paulo de Almeida Ourives, jornalista.

Como terceiro capítulo, "a bola rola em Campos".

Campos, no Norte do Estado do Rio de Janeiro, tem o privilégio de se situar entre as poucas cidades que, mesmo enfrentando mil obstáculos, conseguiu arregimentar a força de vontade de sua gente, que lutou, apaixonou-se pela causa e acabou, pelos próprios méritos, se vendo projetada no cenário esportivo nacional, com a inclusão do Americano e do Goytacaz nos campeonatos promovidos pela Confederação Brasileira de Futebol e Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro. Mas, de há muito, Campos já era conhecida esportivamente, por ser um dos maiores celeiros do futebol brasileiro, a ponto de gerar, entre uma penca espetacularmente grande de renomados craques, Didi e Amarildo, mais tarde campeões do mundo.

A história desse futebol vem de longe. Data da chegada da primeira bola, o que aconteceu no início do século, segundo depoimento de Renê, filho mais velho do teatrólogo, musicista, jornalista e desportista Múcio da Paixão, numa carta ao seu irmão Hugo, na qual citava que "todo aquele que se dedicar à história do futebol de Campos, deverá buscar suas origens num circo de cavalinhos que nos visitou, por volta de 1907, cujos artistas traziam uma bola de couro toda costurada, com a qual iam se divertir nos capinzais da Praça da República, sem chuteiras e sem uniformes. Dentre eles se destacava o palhaço-músico Alcebíades Pereira, cuja valsa Colúmbia tocava em surdina no picadeiro e deixava muitas vovós suspirando".

Vale a pena transcrever mais um trecho dessa carta que Hugo de Campos Soares, mano de Renê, ex-jogador, inclusive do Botafogo, mais tarde jornalista e advogado, guardava com muito carinho:
"Adolfo Ozon, cunhado de Alcebíades Pereira, de uma famosa dinastia de bairristas circenses, era outro moço de compleição atlética que fazia parte do grupo de artistas que provocava a curiosidade na sociedade de então, com os primeiros vagidos da arte da pelota. Piolim, o famoso clown que até alguns anos atrás residia em São Paulo, era um pequeno de apenas cinco anos de idade, e que tomava parte nas pantomimas, notadamente na guerra de Canudos, mas porque não dispunha de físico para participar das brincadeiras dos mais velhos, acabava sendo um assistente do jogo que se introduzia aqui. Também Mesquitinha, ator famoso, participava dessas peladas".

A falta de registro, por parte da imprensa, em relação à chegada da primeira bola em Campos, deve ser levada em conta por vários motivos, todos respeitabilíssimos, por sinal. Um deles, e muito importante, o de que a prática do jornalismo no início do século não era tão intensa quanto à dos dias atuais. Outro, o de que o município de Campos, para que os de fora façam uma ideia do seu tamanho, é quatro vezes maior do que a área ocupada pela cidade do Rio de Janeiro. Para completar, naquele tempo as distâncias se tornavam maiores pela falta de grandes estradas e até mesmo de meios de transportes. Por tudo isso se tornou polêmica a data da chegada da primeira bola, logo ela, responsável direta pela introdução do futebol na planície goitacá.

Sobre o assunto, o jornal A Cidade, alguns anos atrás, publicava:
"John John Duncan, engenheiro-mecânico da Leopoldina Railway, na década de 1900, foi quem trouxe para Campos a primeira bola, após uma das suas costumeiras viagens à Inglaterra, de onde era originário".

Muito antes, por ocasião do jubileu de ouro do futebol campista, o pesquisador Nilo Terra Arêas escrevia:

"Coube ao Dr. Leopoldo Ferreira, chefe dos telégrafos, a tarefa de trazer para Campos, a pedido do filho, Mário Ferreira, uma bola comprada em Santa Catarina, onde trabalhara".

No dia 4 de abril de 1952, Urbano Suppa, craque do passado, declarava ao jornal Folha do Povo:

"Quando vim para Campos, com 19 anos de idade, a fim de trabalhar como técnico em ourivesaria, trouxe de São Paulo a primeira bola que o campista viu".

Certo é, e isso ninguém discute, que a bola, um dia e já bem distante, chegou a Campos. Também não há dúvida: com a bola rolando na planície, não foi difícil aparecer o que seria o primeiro time, mais tarde clube, por fim outros, os jogos e os campeonatos, já aí organizados pela Liga local, que também acabou sendo criada em 1913.

Pena, no entanto, que o noticiário daquele tempo não tenha sido mais completo, para que se tornasse, de fato, no repositório fiel, sem contestações, da história esportiva do lugar. O emprego do inglês para determinar normas de jogo e posições dos jogadores, e a falta de maiores conhecimentos técnicos da parte daqueles jornalistas, devem ter dificultado um pouco os que, com pequenas notas, quase sempre nas primeiras páginas dos jornais, informavam sobre o movimento ao qual se entregavam heroicamente os rapazes da mais alta sociedade. Foi a falta de conhecimento, a surpresa diante do novo esporte que já mexia com a mocidade da época, que levou um jornalista a escrever estas linhas:

"Encerrado o match, os rapazes, muito alegres, invadiram o bonde no final da linha de tal maneira que o burro não teve forças para dar a partida. É preciso que o senhor delegado, em tais dias, coloque um policial nesse meio de transporte para que sejam evitadas cenas como as que nos foram dadas a presenciar".

O resultado do jogo não foi publicado.
Nilo Terra Arêas, certa manhã, na porta do Monte Líbano, contou que os primeiros grupos de jogadores que se formaram em Campos foram os constituídos de amigos de Mário Ferreira. E a bola, na época, rolava na área onde hoje está o Colégio Batista Fluminense. Disse também, com a certeza dos que pesquisaram e até viajaram por este Brasil enorme à cata de informações, que John John Duncan, um inglês que fez fortuna como fornecedor de dormentes para a estrada de ferro, reunia os rapazes em uma chácara que possuía na Rua Gil de Góis, entregava a bola para que os mesmos jogassem e, depois, dava comida e ainda cigarros para todos. John John Duncan colocou, em sua chácara, chuveiros - antigamente chamavam-se banhos de chuva - para que os praticantes do novo esporte tomassem banhos e, limpos, participassem das refeições que lhes eram servidas. Já Urbano Suppa, em 1952, contou que a primeira bola que trouxe para Campos foi logo presa pelo delegado, Tenente Osório, que mandou os rapazes se comporem, isto é, vestirem suas roupas, e depois tomarem o rumo de suas casas. Múcio da Paixão, intercedendo junto ao policial, conseguiu a bola de volta e ainda a permissão daquela autoridade para que os moços pudessem desenvolver a prática do novo esporte.

Os mais velhos nem sempre se recordam das datas, detalhes importantíssimos para que a história seja contada sem erros. Luiz Grain, nascido em 1896, falou de muita coisa bonita de uma época romântica do futebol campista, mas não citou nomes nem anos. Jorge Muniz, fundador do Campos, só sabia que o primeiro jogo do seu clube foi no Queimado, para onde os rapazes foram levados pelo Wanderley Barreto, "depois de uma farofada muito adiante da caixa-d'água". Urbano Suppa, na tal entrevista à Folha do Povo, garantiu que o Aliança foi o primeiro clube de Campos, enquanto Hugo de Campos Soares, em depoimento mais recente, disse que o primeiro foi o Internacional, fundado em agosto de 1912, mesmo mês e ano em que surgiu o Goytacaz. A 15 de junho de 1913, contrariando Suppa, a Folha do Comércio publicava:

"Mais um club de foot-ball acaba de ser organisado nesta cidade. É o Aliança Foot-Ball Club, cuja directoria ficou assim organisada: Presidente, Octavio Cezar de Mattos; vice, Nelson de Menezes Povoa; 1º secretario, Mucio da Paixão; 2º secretario, Teodulo Almirante Povoa; tesoureiro, João Seixas; captain, Urbano Suppa".
Aqui não é respeitado o rigor determinado pela ordem cronológica dos fatos. Eles são encaixados ao sabor das anotações extraídas de uma pesquisa que se prolongou por muitos anos, da conquista de tantos depoimentos que, reunidos, transformaram-se, como não poderia deixar de ser, em subsídios capazes de provar a existência incrivelmente longa do futebol campista, tão grande no seu passado como maravilhosamente importante nos dias atuais e cheios de esperança num futuro para o qual vem se preparando de há muito.

Relatar a vida dos clubes que deixaram de existir, e foram tantos, não é fácil. Agora, importante é lembrar que a 23 de abril de 1910, portanto dois anos antes do surgimento do Goytacaz, que é o mais velho dos que aí estão, a imprensa anunciou a existência do Athletic Campista Foot-Ball Club, deixando, com isso, a impressão, bastante favorável, de que esse teria sido o primeiro clube da cidade.

Esta panorâmica da história do futebol de Campos serve para que os mais novos, tão ligados apenas ao Goytacaz e Americano, apercebam-se de que estes dois grandes clubes, hoje destaques no cenário esportivo nacional, germinaram em solo fértil, do qual fazem parte Campos, Rio Branco, Paraíso, Cambaíba, Sapucaia e aqueles da fase embrionária que foram a base e até mesmo o alicerce desses dois clubes do interior do Estado do Rio de Janeiro.
Dessa história faz parte o Internacional, responsável até mesmo pela fundação da Liga local. Ele foi fundado alguns dias antes do Goytacaz (a Folha do Comércio de 20 de agosto de 1913, no entanto, anunciava que o seu primeiro aniversário seria comemorado dia 24) e se originou, segundo os mais velhos, de um grupo de caixeiros-viajantes que, ao chegar a Campos, hospedava-se no Hotel Internacional, na Rua Lacerda Sobrinho. Esse clube teve uma atividade intensa, como o Aliança, o da Fábrica de Tecidos, o Lacerda Sobrinho, o Quinze de Novembro, o Luso-Brasileiro, que não existem mais. Depois, com o correr dos anos, apareceram o Paladino, o Atlético, o América, o Itatiaia, o Fla-Flu, o Leopoldina, o Industrial, o Futurista, o São João, de Petrônio Freitas Leite e Altamir Bárbara, o São José, primeiro campeão da divisão profissional, o Aliança, este da Usina do Queimado, que chegou a ser tricampeão, pelo qual Lelé, o grande Lelé jogou, e o Municipal, do médico Édson Coelho dos Santos, que teve a audácia de promover, numa época difícil, alguns dos mais arrojados amistosos com clubes do Rio de Janeiro.

Em novembro de 1912, um sábado e dia de finados, a Folha do Comércio publicava a seguinte matéria, aqui transcrita inclusive com a grafia da época:

"Fundados ha bem pouco tempo em nossa cidade os clubs de foot-ball, graças á iniciativa de uma destemida rapaziada da nossa melhor sociedade, já no próximo domingo teremos o primeiro match entre o Internacional Foot-Ball Club e o Goytacaz Foot-Ball Club.

Ha para esse primeiro match o mais vivo enthusiasmo entre os associados dessas duas noveis associações sportivas.

O match terá início ás 8 horas da manhã de domingo na sede do Internacional Foot-Ball Club, á rua Formosa esquina de Riachuelo.
Esteve hontem em nossa redação uma comissão composta dos Srs. Edmundo Bastos, Guilherme Fritsch Duncan e Daniel Sanz, pertencente ao Internacional, para nos convidar para essa festa sportiva.

Em nosso paiz ha mesmo necessidade que se desenvolvam as associações desse genero para que se não repitam as vergonhosas derrotas que os foot-ballers argentinos tem infligido aos brasileiros".

No dia 6 de novembro de 1912, uma quarta-feira, o mesmo jornal, em sua primeira página, escrevia:

"Effectuou-se domingo ultimo o match entre o Internacional Foot-Ball Club e o Goytacaz Foot-Ball Club. Foi esse o primeiro encontro das sympathicas sociedades, tendo logar a partida no ground do Internacional, á rua Tenente-Coronel Cardoso canto da rua Riachuelo.

Os teams foram assim compostos:
Internacional - Goal-keeper, Edmundo; full-backs, Samuel e Henrique; half-backs, Geminio, Seixas e Aristides; forwards, Copland, Britto, Suppa, Duncan e Carlos.

Goytacaz - Goal-keeper, Caramuru; full-backs, Doge e Estevam; half-backs, Jorge, José e Alvaro; fowards, Heitor, João, Didu, Otto e Ruda.

O primeiro half-time esgotou-se sem que nenhuma das duas equipes marcasse um goal, e no segundo Britto fez a bola resvalar dentro do goal. Afinal, o bravo foot-baller Samuel Hockins conseguiu marcar para o seu partido o primeiro goal.

O jogo começou quase ás 9 horas da manhã, reinando grande animação entre os rapazes dos dois clubs.

O foot-ball está, pois, iniciado em nossa terra.
O Internacional e o Goytacaz apresentaram-se galhardamente, promettendo dentro em pouco offerecer aos campistas interessantes espectaculos, tão queridos do inglezes".

Do que poucos tomaram conhecimento foi que, em 1911, o Athletic Campista Foot-Ball Club comemorou, dia 23 de abril, seu primeiro aniversário, tendo sido fundado, portanto, em 1910. Dele nenhum jornal falou mais, pelo menos de 1912 para cá, mas a Folha do Comércio, em sua edição de 23 de abril de 1911, anunciava, com o título "Foot-Ball", o seguinte:

"Esse gênero de esporte, atualmente em voga em todos os centros civilizados, pela circunstância de reunir o útil ao agradável, está sendo muito cultivado em Campos, datando de muitos meses a sua instituição, que aliás tem passado algum tanto despercebida.

Vêm essas linhas a propósito de um encontro a realizar-se hoje, na Praça Azevedo Cruz, às 3 horas da tarde, entre o Athletic Campista Foot-Ball Club e o Brasil Foot-Ball Club. A festa, que será abrilhantada pela aplaudida Lira Guarani, é comemorativa do primeiro aniversário desse clube, cuja diretoria, por intermédio do seu 1º secretário, Plínio Aguiar, teve a gentileza, que agradecemos, de dirigir-nos um convite por meio de ofício, em que nos participa que a referida festa é dedicada à nossa imprensa e à Lira Guarani.
Os campeões das duas sociedades estão discriminados na seguinte ordem:

Athletic Campista Foot-Ball Club - Moncler de Almeida; Plínio Aguiar e Walfredo Freitas; Nicolau Velasco, Amadeu Braz e Atanagildo Freitas; Deodoro Camargo, Lauro Freitas, Jorge d'Oliveira, Alcides Grain e Adelino Laranjeiras.

Brazil Foot-Ball Club - Lazaro d'Oliveira; Deoclécio Ferreira e Vicente Queiroz; Augusto Antônio da Silva, Edemar Borges e Antenor Peixoto de Oliveira; Dionísio Terra, Manoel Mendes, Carlos da Silva, Reclino Gomes e Joaquim Lopes do Nascimento".

No mesmo ano de 1911 o jornal Folha do Comércio, dia 31 de janeiro, anunciava que, em assembléia realizada dois dias antes, os destinos do Rio Branco Futebol Clube, haviam sido entregues à seguinte diretoria: Presidente, Adail Cerqueira; vice, Renan Reis; secretário, Teódulo A. Porto; orador, Jayme Landin; tesoureiro, Cid Siqueira; fiscal, Mário Manhães.

A 27 de maio do mesmo ano esse jornal escrevia que os sócios do Rio Branco Futebol Clube fariam exercícios dia 28, domingo, às 8 horas da manhã, na chácara do Pensionato Silva Tavares, onde havia sido instalada a sede dessa agremiação.

Cabe aqui, ainda, alguns trechos das matérias publicadas no jornal Folha do Comércio, uma delas a 21 de janeiro de 1913 e que dizia o seguinte:

"Conforme noticiamos, o Internacional FC, após uma temporada de impertinentes chuvas que já há muito tempo emprazava a realização de sua festa inaugural, pôde enfim levá-la a efeito anteontem com o concurso dos clubes Goytacaz e Quinze de Novembro.

O programa era composto de dois matchs, sendo o primeiro disputado pelo 1º team do Quinze de Novembro e o 2º team do Internacional, e o segundo, pelo 1º team do Goytacaz e 1º team do Internacional.

Seria precisamente 3 horas da tarde quando, presentes muitas famílias, cavalheiros, a Sociedade Musical Operários Campistas e o representante da Folha, teve começo o 1º match, que era composto de pessoal ainda fraco e que não podia absolutamente mostrar a importância deste jogo pouco conhecido entre nós. Entretanto, houve shoots bastante interessantes, sendo que um deles, aplicado em um momento de felicidade pelo foward Torres, do Quinze de Novembro, valeu-lhe um goal contra o Internacional. Esse match teve dois tempos de 30 minutos e foi vencido por 1 contra 0 pelo Quinze de Novembro.

Às 3 e 15 teve começo o 2º match, havendo uma pequena modificação no team do Internacional, ficando o full-back Henrique, que adoecera, substituído por José; o half-back Seixas por Zeminis, e o goal-keeper Pollay por Seixas. Essa modificação não causou vantagem absolutamente alguma ao clube.

O team do Goytacaz obedeceu a escalagem do programa.
Esse match foi disputado com toda a pujança, pois nele tomou parte o melhor elemento de ambos os clubes, e no primeiro tempo do jogo, 45', pôde o Internacional, com insana dificuldade, marcar 2 goals contra o adversário. Esses goals foram devidos à agilidade do valente foward Suppa.

Após 10 minutos de descanso teve começo o 2º tempo do match que cada vez mais renhido se tornava, provocando assim os mais calorosos aplausos da assistência. Nesse segundo tempo, que teve a duração igual à do primeiro, o Internacional conseguiu fazer mais 4 goals contra o Goytacaz: 2 feitos com admirável perícia pelo foward Britto e 2 por Samuel que, como perfeito jogador que é, conseguiu dar dois shoots excelentes, sendo que um deles, feito de peito, valeu-lhe estrondosa salva de palmas.

Venceu, pois, o Internacional, fazendo 6 goals contra 0, mas, isso custou-lhe bastante, tal foi a resistência oferecida por Deodoro, Caramuru, Jorge e Estevam, fowards e full-back do Goytacaz.

A directoria, assim como muitos sócios do Internacional, foram muito felicitados pela vitória que acabou de alcançar em sua festa inaugural.

Lembramos ao Internacional a necessidade de, a moda das sociedades congêneres no Rio, ser feita além da linha de off-side na distância de 2 metros, uma cerca que evite o acúmulo de assistentes sobre a mesma linha, pois é isso um grande inconveniente visto que priva o livre curso da bola.

Também faz-se mister que os foot-ballers na ocasião de dar o shoot na bola, deem a change no adversário como manda a regra e não como fazem, isto é, metendo abrutalhadamente as mãos nos contrários, atirando-os ao solo, contundindo-os, muitas vezes.
É preciso que alguns foot-ballers, quando se acharem no campo, lembrem-se de que estão no meio de uma sociedade culta e que o seu mister é atender ao jogo e não travar-se de razões com os assistentes e descompô-los, como fez um dos half-backs do 1º team do Goytacaz".

Na tal matéria da Folha do Comércio, os horários para os primeiro e segundo jogos, não estão certos, pois se a preliminar foi iniciada "precisamente às 3 horas" e dela fizeram parte dois tempos de 30 minutos, o jogo de fundo não poderia começar às 3 e 15.

Na edição de 19 de janeiro de 1913, um domingo, o dia da tal festa inaugural do Internacional, o mesmo jornal divulgava as escalações dos quatro times para os dois jogos que acabaram sendo realizados. E a tal festa inaugural, pelo que se depreende, foi relativa ao campo de jogo, pois o Internacional fora fundado um ano antes. Quanto aos times anunciados, foram estes:

1º team do Quinze de Novembro - Goal-keeper, Peralva; full-backs, Reginaldo e Mário; half-backs, Renato, Armando e Durval; fowards, Heitor, Alfredo, Torres, Oliveira e Sanete.

2º team do Internacional - Goal-keeper, Zezé; full-backs, Flávio e Zimenio; half-backs, Franco, Duncan e Mauro; fowards, Alfredinho, Daniel, Burgon, Dirceu e Benjamim.

1º team do Goytacaz - Goal-keeper, Artur; full-backs, Estevam e Diogenes; half-backs, Polibio, Virgilio e Siqueira; fowards, Rudá, Otto, Caramuru, Deodoro e Jorge.

1º team do Internacional - Goal-keeper, Pollay; full-backs, Henrique e Aristides; half-backs, Cordeiro, Raul e Seixas; fowards, Copeland, Suppa, Samuel, Britto e Porto.
Ainda a Folha do Comércio de 29 de abril de 1913 publicava:

"Realizou-se anteontem, às 4 horas da tarde, no ground do Internacional FC, a rua 13 de Maio, no Beco, o encontro dos clubes de foot-ball Democrata e Rio Branco, os quais sob a aposta do desaparecimento da sociedade que fosse vencida e reversão dos bens sociais à subsistente, travaram-se em renhido match.
A luta foi incessante entre ambos os clubes, mas nessa half-time nenhum deles logrou fazer um único goal que fosse, o que, entretanto, não impediu que fizessem a nossa apreciação quanto à resistência do clube que seria o vencedor.

Esse, a nosso ver, seria o Rio Branco se tivesse havido mais um pouco de interesse no pessoal do team, pois os full-backs e half-backs, achavam-se apegados às suas colocações, não se incomodando a prestar o mínimo auxílio ao centro que, com toda a pujança, se batia contra o adversário.

Observando também a parcialidade do juiz desse match, que chegou a privar o Rio Branco de chutar um penalty que lhe cabia, como é de regra, por haver um dos full-backs do Democrata posto a mão na bola dentro da linha do penalty.

Mesmo assim os Democratas rasparam uma boa meia dúzia de sustos, aumentando muitas vezes pelo abandono em que se achavam as linhas de defesa, dos extremas.

Às 5 e meia da tarde, deu-se fim ao match, tendo havido, como já dissemos, empate entre ambos os teams".

Agora, duro de se entender, mesmo porque o Americano, oficialmente, é de junho de 1914, é a nota que se segue, publicada na quarta-feira 14 de maio de 1913, pela Folha do Comércio:
"Teve lugar no último domingo, às 9 horas da manhã, na Praça Azevedo Cruz, o match em que tomaram parte os 1º e 2º teams dos clubes Americano e Quinze de Novembro.

Como fosse a primeira vez que esses teams jogaram, o match não foi mais que um exercício. Entretanto, excluindo-se alguns enxertos que haviam no team do Quinze de Novembro, podemos notar que no restante dos grupos há rapazes bastante ágeis e que poderão ser para o futuro bons foot-ballers. É porém preciso que os captains de ambos os clubes não se descuidem nos treinamentos. O Quinze de Novembro conseguiu marcar 2 goals contra o Americano".

No mesmo domingo 11 de maio de 1913, no campo do Internacional, Democrata e Rio Branco jogaram outra vez e voltaram a empatar, desta feita de 2 a 2. Esses dois clubes se enfrentaram pela terceira vez no dia 18 de maio e o Rio Branco levou a melhor por 3 a 0.

"No ground do Internacional, verificou-se domingo, como noticiamos, o encontro dos primeiros teams dos dois clubes, Campos e Rio Branco, os quais ás 3 e 45 entraram no field acompanhados do referido referee, Lincoln. Após a sorte, que decidiu a colocação ao sul, ao Rio Branco, colocou-se toda a equipe.

Ás 3 e 50, deu-se sahida á bola, começando então o primeiro half-time. A luta começou renhida de parte a parte, demonstrando assim a excellente travagem dos dois teams.

Ás 4 e 5, Heitor que trocara a sua collocação com Edgardo, recebendo a bola por passe de Ernesto, poude com dificuldade insana varar o goal. Este feito do sympathico sportman valeu-lhe muitas palmas. Começava então o score do dia para o Rio Branco.
Dada a sahida, a bola collocou-se um pouco na extrema direita desse club, mas voltando rapidamente a esquerda Jorge passou-a a Carivaldino que, de um shoot, fel-a transpor o goal. Eram 4 e 10.
Feita nova sahida houve uma interessante serie de passes entre Euclides, Angelo e Heitor, localizando-se a bola um pouco nessa extrema. Vindo ao centro, Ernesto shootou-a em goal, mas Portillo poude recual-a em tempo.

Venceu-se o primeiro half-time, eram 4 e 35.
Ás 4 e 40 recomeçava o jogo no segundo half-time, que, como no primeiro, esteve sempre bom, sendo os foots-ballers alvos das mais significativas manifestações da assistência.

As extremas eram de uma resistencia muito aparelhada, notando-se nos teams boa ordem, mas reparamos que Portillo não conhece bem as responsabilidades do goal, assim como Carvalho desloca-se muito e... fala demais.

Não obstante isso, o jogo seguiu sem embaraços até que ás 5 e 8 Amaro varou o goal, marcando ao Campos o 2º ponto. Ás 5 e 25 findou-se o match, cujo resultado: Campos 2, Rio Branco 1".

O período amadorista do futebol campista, iniciado oficialmente em 1914 e encerrado em 1951, contou com a disputa de campeonatos em todos os anos menos em 16, por causa de uma epidemia, e 27, porque a Liga esteve acéfala. Esses campeonatos foram iniciados mas não terminaram, conforme informações obtidas junto aos jornais do lugar. Sobre o campeonato de 1914, o primeiro de tantos, a Folha do Comércio de 15 de maio daquele ano escrevia:

"Esteve ante-hontem reunido o Conselho Director da LCF, que ouviu a leitura e approvou a tabella official do Campeonato Campista de Foot-Ball a ser disputado no corrente anno, tabella essa organizada pela commissão nomeada na sessão anterior, e composta dos Srs. Múcio da Paixão, Sylvio Fontoura e Wanderley Barreto.

Foi relator dessa commissão o Sr. Múcio da Paixão, que adoptou o critério da sorte para os clubs que deviam de dar início ao Campeonato.

Por proposta do delegado do Aliança FC, resolveu o Conselho Director adoptar, até ser organizado o da Liga, o regulamento da LNSA, elaborado para reger o campeonato do Rio de Janeiro.
Eis a tabella official organizada para os matchs do Campeonato:
1º turno - Maio, 17, Campos versus Goytacaz; 24, Quinze de Novembro versus Internacional; 24, Lacerda Sobrinho versus Campos; 31, Goytacaz versus Quinze de Novembro; junho, 7, Internacional versus Aliança".

Desgraçadamente, a tal tabela programava, ainda para 7 de junho, os jogos do Lacerda Sobrinho x Internacional e Quinze de Novembro x Aliança, o que não deve ter acontecido, porque Aliança e Internacional seriam adversários no primeiro dos três jogos programados para o mesmo dia. Outro detalhe importante: a Folha do Comércio e o Monitor Campista não mencionaram nada sobre esses jogos, a não ser o do dia 17 de maio, data de abertura do Campeonato, e que foi vencido pelo Campos por 2 a 1, sobre o Goytacaz. Gibi e Goiaba fizeram os gols do Campos e Jorge o do Goytacaz, que fez 1 a 0 no primeiro tempo.

A tabela inicial do Campeonato, portanto, não foi cumprida. Dela faziam parte: Campos, Goytacaz, Quinze de Novembro, Internacional, Lacerda Sobrinho e Aliança, o da Fábrica de Tecidos e não aquele que, em 1936, 37 e 38, conquistou o tricampeonato. Já da segunda e, ao que parece, a que vingou, fizeram parte Aliança, Internacional, Americano, Rio Branco, Goytacaz, Quinze de Novembro, Lacerda Sobrinho e Campos.

A Folha do Comércio de 4 de setembro de 1914 anunciava que a dualidade de ligas acabara e que, por isso, voltaram à Liga Campista de Futebol, Internacional, Campos, Rio Branco e Aliança. O noticiário se conflita ao apresentar os resultados e na identificação (se oficiais ou amistosos) dos jogos, falhando, ainda, clamorosamente, no final de tudo, quando anunciou uma decisão extra entre Campos e Goytacaz, que chegaram empatados nos primeiros e segundo times. Só em janeiro de 1915 foi que o noticiário deu conta de alguma coisa, quando divulgou os resultados de dois amistosos entre o campeão, o Goytacaz e o Americano e um escrete da Liga, para os quais o clube da Rua do Gás perdeu, respectivamente, de 4 x 0 e 3 x 1.

Para o saudoso Augusto Machado Viana Faria, fundador do Luso-Brasileiro e, a seguir, um dos mais devotados dirigentes do Goytacaz, a tal decisão extra entre o seu novo clube e o Campos acabou se realizando. Durante o tempo normal de jogo se verificou o empate de 1 x 1 e, na segunda prorrogação, o Goytacaz venceu por 1 x 0.

O Monitor Campista do dia 29 de dezembro de 1914 publicava que "na vitrine da Casa Clark acha-se exposta a riquissima taça de prata que os agentes gerais da Cia. Cervejaria Antartica, Sra. Gonçalves, Zenha & Cia., oferecem ao campeão dos segundos times dos clubes filiados à Liga Campista de Futebol. No corrente ano, o detentor dessa taça é o segundo time do Goytacaz FC".

Esse primeiros meses, já aí oficiais, do futebol campista, foram bem difíceis, como provam outras informações colhidas nos jornais locais. Serviram, no entanto, para enraizar, como em outro centros, o novo esporte, a ponto de o Monitor Campista, em sua edição de 2 de maio de 1915, divulgar o início do novo campeonato, o que acabou acontecendo. Depois, vieram os demais.

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