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História do futebol campista: terceiro capítulo - a Guerra dos 100 anos


Dando sequência ao Especial, o GF ESPORTE continua a falar sobre a história do futebol da cidade de Campos dos Goytacaes em 18 capítulos. As matérias tem por base o trabalho realizado por Paulo de Almeida Ourives, jornalista.


Como terceiro capítulo, "a Guerra dos 100 anos".

Poucos, muito poucos mesmo, fora de Campos, são capazes de imaginar até onde possa chegar o grau de rivalidade existente entre o Americano e o Goytacaz. Ela vem de longe e há quem diga que surgiu antes mesmo do primeiro jogo entre os dois clubes, em 1914. O Goytacaz, na época, com dois anos, e o Americano vivendo seus primeiros dias, já se apresentavam aos olhos dos campistas como as duas forças irresistíveis do futebol local, embora o Internacional, o Campos e o Rio Branco fizessem por merecer as atenções gerais numa fase em que o futebol não contava com o grande número de adeptos de agora. Muitos anos depois, em 1975, com a inclusão do Americano no Campeonato Brasileiro, a gente alvi-anil se comprometeu, como um juramento que é feito à beira do túmulo, a não ver um jogo sequer dos sete que o rival faria no ampliado Estádio Godofredo Cruz, pelo certame promovido pela Confederação Brasileira de Desportos. Estranhamente, no entanto, o médico Nílson Cardoso de Souza, com raízes profundas de amor ao Goytacaz, veio da praia de Grussaí e entrou no Estádio Godofredo Cruz com uma placa: "Rivais em Campos, unidos no Nacional".

- Isto não quer dizer que mudei. Significa, apenas, que torço pela minha cidade. Agora, jamais beberei da glória que o Americano possa alcançar - comentou, na oportunidade, o conhecido médico.

Alguns anos antes, na Praça Nilo Peçanha, em Barra do Piraí, onde o Goytacaz teria que jogar contra o Central pelo Campeonato Fluminense, Salvador Araújo Nunes, ao saber da rivalidade existente entre o mesmo Central e o Roial, clubes daquela cidade, deu uma explicação que considerou lógica para provar o seu desamor ao Americano:

- No Rio, deixei de ser Botafogo só porque a sua camisa é igual à do Americano.

José Gabriel ainda tomava cafezinho, no Galeria, com Francisco das Chagas Siqueira, José Paes, Rômulo Barros e muitas outras figuras ligadas ao Americano. "Mas é - como dizia - para saber o que eles estão armando contra o Goytacaz". O médico Jacinto Simões, um dos grandes presidentes do Goytacaz e ex-jogador do São Cristóvão e do Vasco da Gama, no tempo em que estudava no Rio de Janeiro, não só não foi a qualquer jogo do Americano, no Campeonato Brasileiro de 1975, como também não parava na rua para "não perder tempo com esses merdas".

O certo é que Goytacaz e Americano nunca se deram bem e, quando partiu de Nílson Cardoso de Souza a idéia de levar aquela placa para o Estádio Godofredo Cruz, muita gente na Rua do Gás criticou o filho de Ari de Oliveira e Souza: "O Nílson parece que tem porcaria na cabeça!".

A guerra entre os dois grandes clubes foi, sempre, franca e aberta, muitas vezes atingindo as raias de brigas homéricas entre jogadores e torcedores dos dois clubes.

A Folha do Comércio, em fevereiro de 1923, publicava na primeira página matéria sobre o fracasso do jogo Americano x Goytacaz, que é transcrita, inclusive com a grafia da época:

"Conforme noticiamos hontem em primeira mão, o Goytacaz não aceitou o convite que lhe dirigira o Americano para a realização de uma partida de foot-ball no próximo dia 18.

Como não podia deixar de ser, a nova causou pasmo em nosso meio sportivo, notadamente nas rodas do Americano, onde se tinha como fora de duvida a aceitação do Goytacaz.

A notícia causou mais surpresa à vista dos precedentes, pois era notoria que a turma goytacaz não escondia a vontade de fazer a equipe do Americano conhecer o peso da homogênea esquadra alvi-anil.

Ademais, os paredros da valente sociedade sportiva da Rua do Gaz, quando abordados, sempre deram a entender que era cousa fóra de duvida a acceitação do convite.


Poucos dias ha que um prestigioso director do Goytacaz aventou a um influente alvinegro, mais ou menos o seguinte: Fulano. Você que tem influencia no Americano, vê se arranja o seu club convidar o Goytacaz para um jogo, proximamente. 

O sportman alvi-negro discordou da superioridade do alvi-celeste e disse que o seu club - o Americano -, desconhecia toda essa força da esquadra alvi-anil, que não fazia medo e que iria ajeitar as cousas para a promoção do jogo.

Dias depois, o alvi-negro, em sessão de sua directoria, resolvia convidar o Goytacaz para um encontro de foot-ball; e, depois de algumas delongas. este club resolve rejeitar o convite do Americano.

Não nos é dado comentar as causas determinantes da rejeição do Goytacaz, e nos limitamos, somente, a exarar aqui o que colhemos de fonte que julgamos fidedigna".

Ainda na Folha do Comércio, era transcrito o ofício do Goytacaz ao Americano, nos seguintes termos:

"Respondendo ao vosso officio de 1º do corrente, cabe-me informar a vv.ss. que, em sessão de hontem, resolveu a nossa directoria, por unanimidade, não aceitar o honroso convite para o jogo amistoso que se realizaria no dia 18, de accordo com os desejos manifestados entre as esquadras deste club e as do clube de vv.ss.

A nossa recusa é motivada, apenas, pela vontade que temos de evitar a reprodução de certos factos lamentaveis que se tem observado no decorrer desses encontros, occurrencias estas que tem repercutido tristemente no nosso meio sportivo.

Devido a esses acontecimentos, temos chegado á conclusão de que os jogos entre os dois clubs deverão ser, tão somente, os que obedecerem aos campeonatos officiaes ou á disputa de trophéos instituídos.

Não escondemos a magua que essa deliberação obrigada nos causa, justamente agora, quando se acredita que a nossa principal equipe está em optimas condições de fórma, e ainda porque sempre demonstramos a maior satisfação em enfrentar as pujantes esquadras do club de vv.ss.

Não terminamos este sem pedir a vv.ss. licença para um leve reparo nos dizeres de vosso offício. É que, a nosso ver, a decadencia allegada por vv.ss. e por que atravessa o foot-ball campista, não tem como causa factora e preponderante a falta de jogos entre esses dois clubs, cujos jogos, de forma alguma resolverão esse caso de visível desanimo.

Entendemos que essa real decadência é originada das consequências más e desastrosas de factos recentes, cuja responsabilidade cabe á nossa política geral sportiva, contra a qual precisamos, todos nós, offerecer serio combate.

Esses encontros terminam após a luta. O enthusiasmo desses momentos, passa. Mas a decadência caracterizada ficará, continuará insolúvel, se de nossa ação conjuncta não surgirem melhores desejos para a moralização do sport, competíveis com uma política de equidade, justiça, e de respeito ás leis que regem as cousas sportivas locaes.

Eis como encaramos a causa desse phenomeno gravíssimo que é a decadência por que atravessa o foot-ball campista.

Com os protestos de nossa consideração, apresento-lhes os nossos cumprimentos.

O secretario, (a) Sílio Oliveira Reis.
Campos, 8 de fevereiro de 1.923".


Não foram poucas as vezes em que os dois grandes clubes deixaram de se entender. E disso dava prova, novamente, a Folha do Comércio do dia 2 de junho de 1927, ao anunciar que o Americano abandonara a Associação Campista de Esportes Atléticos porque essa concedeu inscrição ao center-half Malvino, pelo Goytacaz. Para o mesmo dia a ACEA programou o jogo América x Atlético no lugar de Americano x Atlético, enquanto que, no dia 7 de junho, o mesmo jornal divulgava que o Goytacaz resolvera manter a inscrição de Malvino, mas, para evitar perturbações no futebol, deixava de incluir o jogador nas partidas do campeonato.

Esse Goytacaz, que se sentiu relegado a um plano secundário quando a CBD convidou apenas o Americano para participar do Campeonato Brasileiro de 1975, nesse mesmo ano esteve a pique de perder toda a sua diretoria por culpa, segundo a edição de 3 de agosto do Domingo Esportivo, de uma jogada do alvi-negro.

"Foi o presidente Roberto Krunfly anunciar que se afastaria do cargo para o Conselho Deliberativo do Goytacaz se reunir extraordinariamente e, no final do encontro, expedir nota oficial na qual se lê: O Conselho Deliberativo do Goytacaz Futebol Clube vem de público hipotecar irrestrita solidariedade à Diretoria do Clube, não aceitando o pedido de demissão coletiva que lhe foi apresentado, em virtude das assacadilhas contra a moral de nossa agremiação, resolvendo ainda manter-se em reuniões permanentes, deixando para posterior divulgação as decisões que tomar em razão dos acontecimentos".

Tudo isso, segundo o Goytacaz, foi provocado pela atitude que considerou deselegante do co-irmão Americano, ao solicitar exame anti-doping para o jogo da última quinta-feira, entre os dois clubes. Lá mesmo no Estádio Ari de Oliveira e Souza o presidente Roberto Krunfly fez a declaração de que se afastaria. Na mesma hora, o Vice-Presidente da Liga Campista de Desportos, Sr. Amílcar Vieira Maciel, largou o cargo, deixou o local do jogo e não apareceu mais na entidade, da qual era também o diretor de futebol. Enquanto isso, o Vice-Presidente da Federação Fluminense de Desportos, Dr. Eduardo Augusto Viana da Silva, encaminhava o Dr. Fernando Samico para proceder o exame anti-doping.

Durante a reunião do Conselho Deliberativo do Goytacaz, os dirigentes Roberto Krunfly e Jacinto Simões fizeram questão de dizer que são favoráveis ao exame anti-doping, mas não da maneira como ele foi realizado. E a maneira foi esta: só para o último jogo e justamente porque o Goytacaz poderia ser campeão do primeiro turno, graças ao bom time que possuía. Acharam que tudo não passou de uma manobra da cúpula do Americano sob a tutela da presidência da Liga Campista de Desportos que, dizendo que protestava contra a medida, aceitava-a também.

Vários conselheiros alvi-anis fizeram uso da palavra durante a reunião e o que se verificou foi uma revolta muito grande de todos, não pelo fato de o exame ter sido feito, mas porque o pedido do alvi-negro à LCD e negado pelo Vice Amílcar Vieira Maciel deu entrada à mesma hora em que um outro chegava ao CND e no qual, como que adivinhando o que aconteceria em Campos, o clube de Parque Tamandaré alegava que a entidade campista havia negado autorização para o exame. A imprensa diária de Campos só divulgou isso no dia 30, portanto, em cima do jogo que, de fato, prendeu as atenções dos torcedores, a ponto de a renda ter sido seis vezes maior do que a maioria das demais rodadas duplas do campeonato desse ano. Mantendo-se em sessão permanente, o Conselho Deliberativo do Goytacaz aguardava o pronunciamento do médico Fernando Samico, que levara para o Rio a urina de Paulo Marcos e Naldo, do Goytacaz, e Luisinho e Chico, do Americano, para tomar outras decisões que considera importantes para manter elevada a moral do clube".

Ainda sobre o tal exame anti-doping solicitado pelo Americano, o Domingo Esportivo de 18 de agosto de 1975 publicava, na íntegra, a seguinte nota oficial emitida pelo Conselho Deliberativo e Diretoria do Goytacaz:

"O Goytacaz FC, por sua Diretoria e Conselho Deliberativo, vê-se, a contragosto, forçado a vir a público para definir posições e responsabilidades, a fim de cumprir elementar dever não apenas para com seus associados e adeptos, não apenas aos desportistas de Campos e a seus co-irmãos, mas a toda opinião pública em face do episódio verificado no dia 31-07-75. Silenciar seria admitir injúrias que a tradição e o nome do clube não podem deixar passar sem um desagravo.

De início, o Goytacaz FC quer deixar bem claro que lamenta a falta de ética e o uso de processos desprimorosos e em desacordo com os mais sadios princípios de relacionamento esportivo praticados pela Diretoria de um clube de tantas tradições como o seu co-irmão Americano FC e não quer envolver o mesmo clube em episódios tão deploráveis, preferindo fixar a responsabilidade do mesmo a sua atual Diretoria, que demonstra, pelos processos empregados, não estar em condições de manter a lisura e a boa ética que trouxeram o Americano, através dos anos, até o nível onde merecidamente se encontra.

O Goytacaz FC foi colhido de surpresa, pois jamais poderia admitir que o desvario de uma Diretoria conduzisse à prática de atos como aquele, visando a confundir e colocar o Goytacaz FC no pelourinho da opinião pública, através de um voto de suspeição injurioso e desrespeitador.

Durante a série de campeonatos levantados pelo seu glorioso rival, os dirigentes do Goytacaz FC jamais cogitaram, por um momento sequer, de tomar providências acauteladoras, fugindo de dar guarida a boatos e maledicências que envolviam tanto o uso de café estimulante, como a conduta e os atos esquivos de um seu representante no aliciamento de árbitros da Federação Fluminense de Desportos. No tal campeonato, jamais o Americano FC lembrou-se de exigir o exame anti-doping, motivo por que a apelação na última hora visou tão-somente a um golpe que tinha a finalidade de desprestigiar este clube. O Goytacaz FC jamais se colocaria contra a adoção da medida saneadora, não fosse o golpe baixo aplicado em cima da hora e ao arrepio do bom senso e dos regulamentos. E não se colocaria por não ter jamais apelado para recursos criminosos e sequer foi disso acusado, nem pela maledicência anônima e covarde.

Lamentamos a conduta da atual Diretoria do Americano FC, a qual se deixou levar por impulsos menos lisos, na preocupação de justificar, por antecipação, um possível resultado adverso, o que afinal não ocorreu. Lamentamos a conduta acomodatícia da Liga Campista de Desportos na pessoa do seu presidente, que foi alcançada na sua autoridade e não soube defender as tradições de altivez e independência dos esportes campistas, valores morais que foram resguardados pela atitude altiva e viril do Sr. Amílcar Vieira Maciel.

E por fim lamentamos profundamente que a atual Diretoria do Americano FC tenha praticado, no longo prazo de mais de 60 anos de rivalidade sadia, o ato mais desprezível que se poderia admitir no relacionamento entre nossos clubes. O Goytacaz FC não é um ajuntamento de irresponsáveis, mas uma das mais caras tradições de Campos. E esta posição inarredável não poderia mesmo ser atingida pela leviandade e conduta irresponsável de uma Diretoria que não pode responder pelas tradições gloriosas do Americano FC, a quem rendemos as nossas homenagens respeitosas".
A nota oficial do Goytacaz foi assinada pelos Srs. Salvador Araújo Nunes, Presidente do Conselho, e Roberto Krunfly, Presidente-Administrativo.

Muito antes, no dia 1º de fevereiro de 1968, Hervê Salgado Rodrigues, diretor do jornal A Notícia, escrevia:

"A falta de firmeza e de isenção de dirigentes e julgadores mais que a incompetência de árbitros de campo é que vai comprometendo o futebol brasileiro em toda parte. E ainda agora uma crise séria ameaça o nosso humilde futebol. O Goytacaz FC na quinta-feira, dia em que seriam julgados processos pelo órgão judicante da Liga, teve conhecimento de que um juiz estava sofrendo pressões para pedir vista do processo, a fim de beneficiar o seu adversário no dia seguinte. Seus dirigentes comunicaram a quem de direito a manobra e, certos de que o golpe seria de fato praticado, prepararam, por antecipação, ofícios à entidades e uma declaração para ser publicada nos jornais. Consumado o gesto deselegante e faccioso, o ofício e a declaração, que já estavam prontos, foram encaminhados a seus destinos, informando ao público que a sua equipe não disputaria a partida.

A posição assumida pelo veterano clube pode ser discutida. Nunca, entretanto, em termos desrespeitosos e, na base, insistente e maliciosa, de que o clube desrespeitou o público. Desrespeitar o público seria deixar que fossem vendidos ingressos e em cima da hora a equipe não disputar a partida.

A grande massa de torcedores, sócios e dirigentes do clube mais popular da cidade se queixa do tratamento que lhe é dado por alguns. Se houve outras manobras e golpes no passado, beneficiando o Goytacaz - coisa que não discutimos - o fato é que o clube foi, então, impiedosamente malhado. Agora, quando passou à condição de vítima, continuar sendo malhado é de amargar. Irrita, enerva e revolta.

Pedir vistas do processo é medida que tem amparo na lei jurídica. Só não tem, em determinadas circunstâncias, amparo na lei moral. Principalmente quando envolve aspectos de golpe conspirado e conhecido pela vítima por antecipação.

Mas em tudo isto o lamentável é o desgaste da autoridade de dirigentes. Qualquer que seja a solução do delicado problema surgido, o certo é que teria sido muito melhor que ele não tivesse ocorrido. Pois a verdade é que quando existe o estrito cumprimento dos deveres, tanto jurídicos como morais, não há necessidade de acordos ao arrepio das leis."

Desta rivalidade conta ainda um outro capítulo, lembrado pelo Domingo Esportivo em sua edição de 21 de setembro de 1975. Esse jornal publicava matéria sobre a criação da Força Jovem, primeira facção da grande torcida do Americano. Uma singularidade: moças da sociedade local faziam parte do grupo ricamente uniformizado. A foto, em cinco colunas, que ilustrou a matéria, mostrava moças e rapazes esticando enorme faixa em pano, na qual se liam, em letras enormes, Força Jovem, e em números menores os anos de 64, 65, 67, 68, 69, 70, 71, 72, 73, 74, nos quais o Americano havia conquistado os últimos campeonatos.

O ano de 66 foi substituído, na tal faixa em pano, por um cifrão ($), simbolizando uma transa desonesta de alguém do Goytacaz com os três goleiros do Americano, naquele ano.

Os jornais, tanto campistas quanto alguns do Rio de Janeiro, principalmente depois que Americano e Goytacaz passaram a disputar os certames estaduais e nacionais promovidos pelas entidades sediadas na Cidade Maravilhosa, nunca perderam tempo e sempre contaram, com riqueza de detalhes, episódios vividos pelos dois clubes, nos quais ficava evidenciada a rivalidade entre alvi-negros e alvi-anis. Em 1978, por exemplo, o Jornal dos Sports publicava matéria sob este título: "Americano x Goytacaz: Quem ganhou no campo não quer perder no Tapetão".

Essa matéria, publicada no dia 26 de abril, dizia que "Goytacaz e Americano, adversários históricos e dois dos clubes mais poderosos do Norte do Estado, continuam, no Tapetão, uma partida em que vibram golpes poderosos, em que se defrontam advogados famosos, especialistas em legislação esportiva, em que se medem também influência, prestígio e, porque não dizer, ambição e orgulho".

A matéria em cinco colunas, de alto abaixo da página seis, e muito bem apresentada graficamente, reatualiza rumoroso caso (também muito importante por sua própria natureza), pois constava da pauta do Tribunal Especial da CBD e seria apreciado três dias depois. Do texto de abertura, um tipo de vitrine para instigar o leitor a ler a parte mais ampla da matéria, faziam parte outras considerações, como esta: "Você pode analisar o pensamento e avaliar os argumentos do advogado do Goytacaz e, também, alcançar uma compreensão mais clara dos motivos alegados pelo Americano, na tentativa de ganhar pontos perdidos no campo".

Com um título menor - "A Expedição do Goytacaz à Bahia" - a matéria do Jornal dos Sports historiava tudo desta maneira:
"Edecir Oliveira, presidente, Jorge Fernandes de Sousa, vice, e Mituca, ex-jogador do Bangu e Canto do Rio e, na oportunidade, empresário, transaram os dois amistosos do Goytacaz na Bahia. Um em Itabuna, outro em Ilhéus, mais 70 mil cruzeiros, transporte em ônibus-leito da Itapemirim, e estada. Dos 70, 10 mil seriam de Mituca. Acertadas as bases, o clube campista viajou. Jogou em Itabuna, empatou e recebeu 35 mil. Foi a Ilhéus e não jogou. Tudo, segundo as rádios de lá, porque a torcida entrou no estádio sem pagar, o que, afinal, era um problema do promotor. Este cancelou o jogo em Ilhéus. O clube campista lembrou quedo contrato faziam parte dois amistosos, os 70 mil, a estada e o pagamento do transporte. Ficou então acertado que o Goytacaz enfrentaria de novo o Itabuna, na tarde seguinte, em Itabuna e não mais em Ilhéus.

Na hora não havia juiz, quanto mais súmula para os jogadores assinarem, e tampouco relatório e delegado. Se foram vendidos ingressos, o Goytacaz desconhece. Sabe apenas que, conforme o combinado, recebeu os outros 35 mil cruzeiros, dos quais deu 5 mil de novo a Mituca. Terminado o primeiro tempo dessa segunda apresentação, Paulo Marcos, entrevistado por uma emissora baiana, declarou: Para o Goytacaz isto é um treino. Para o Itabuna, um jogo. Nós estamos querendo tocar a bola e eles estão entrando nela que nem famintos num prato de feijão. E esse juiz é uma graça. 

Uma pena que o Goytacaz, hoje um clube conhecido em todo o país, ainda necessite participar de coisas como esta. Reiniciado o jogo o juiz, ex-jogador do Itabuna, expulsou Wilson e Marcus Vinícius. Mesmo assim o Goytacaz fez o seu gol, perdendo de dois a um e vendo o troféu, ao que consta, oferecido pela Prefeitura Municipal de Itabuna, ser entregue ao clube local. Retornando a Campos, o Goytacaz iniciou os preparativos para estrear na Copa Brasil. Seu adversário, o Americano, rival desde 1914. Também começou a tratar da renovação de Wilson, hoje o maior estilista do futebol campista. Enquanto treinava e procurava resolver o problema que tinha pela frente, recebeu duas cartas do Americano.

Uma, com o alvi-negro oferecendo 350 mil pelo passe de Wilson. Outra, informando que entraria com denúncia se Wilson enfrentasse o Americano e este perdesse o jogo. As duas cartas tiveram respostas. Veio o jogo. O Goytacaz escalou Wilson e ganhou de um a zero, gol de Coca. Aí o Americano, na pessoa do advogado Eduardo Augusto Viana da Silva, seu conselheiro, falou: Perdemos no campo mas ganharemos no Tapetão. E é na CBD que o novo jogo se arrasta, com jogadas iguais às de outras brigas entre os dois tradicionais clubes de Campos. E é o Tribunal Especial que, nesta terça-feira, dará a palavra final: ou valida o jogo, deixando com o Goytacaz os dois pontos que ganhou no Godofredo Cruz, ou impugna a vitória alvi-anil, dando ao Americano os dois pontos que tanto deseja "e, para o que é capaz de tudo", segundo Jorge Fernandes de Sousa".

Da mesma matéria fazia parte a entrevista do advogado vascaíno José Leopoldo Félix de Sousa, defensor do Goytacaz. Nela, o conhecido profissional e desportista citava os absurdos do processo, calcado, segundo ele, em mil e uma irregularidades, pois dela não constavam súmula, relatório e borderô. A Federação Baiana, consultada pela CBD a pedido do Americano, informou, por escrito, que o jogo fugiu às normas legais e que não foi responsável pela promoção. José Leopoldo Félix de Sousa citava, ainda, que "é sabido que toda a documentação de um jogo tem que estar na federação, para homologação ou impugnação do seu resultado, num prazo máximo de 48 horas, e o Americano só agora, 20 dias depois, é que consegue anexar ao processo um relatório sem o aval de qualquer autoridade desportiva baiana". No Tribunal Especial, o Goytacaz venceu por três a um e, no Superior Tribunal de Justiça Desportiva a vitória alvi-anil foi de sete a dois, enquanto Eduardo Augusto Viana da Silva, à porta do elevador, declarava - sem levar adiante seu intento - que a luta passaria para a Justiça Comum e que o Goytacaz não disputaria os jogos programados pela CBD.
Sem provincianismo, esta rivalidade toda mais parece uma nova Guerra dos Cem Anos, anunciava um artigo publicado no dia 20 de maio de 1978 no Jornal dos Sports.

Eduardo Augusto Viana da Silva, com grandes serviços prestados ao Americano, jamais desmentiu seu grande amor ao clube de Parque Tamandaré. Também sempre anunciou que essa rivalidade é que fortalece o futebol campista, entregue ao fanatismo otimista e fantasioso, por exemplo, de um Rosa Branca ou Suez, guarda municipal e adepto do alvi-negro que, entrevistado certa feita pelo O Globo, declarava, textualmente: "Prefiro levar uma surra de mulher do que o Americano perder para o Goytacaz. Para o Flamengo, Vasco, a gente aceita por enquanto. Mas para o Goytacaz, nem no treino".

Comentários

  1. https://futeboldecamposdosgoytacazes.blogspot.com/?m=1 confira neste blog pesquisa com todos os jogos dos clubes de Campos.

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