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Jogos de futebol com público podem não acontecer em 2020

Ligas dos campeões cancela jogos na Europa por causa do coronavírus
O ótimo humorista Daniel Furlan, em seu canal de Youtube, fez um vídeo daqueles bons para rir em meio ao momento difícil que vivemos. Intitulado "Frases que valem tapa na cara – edição coronavírus", ele fala, em frente à câmera, diversas expressões condenáveis que vêm sendo ditas por aí no tempos de crise sanitária. De devaneios que diminuem a gravidade do assunto, até amenidades fúteis do confinamento, todas as frases recebem um simbólico tapa na cara (de luva!) antes do fim. Uma deles é: "mas como ficam os campeonatos estaduais?"

A piada de Furlan é um resumo simples do básico: em tempos de pandemia, o futebol está longe de ser prioridade. Gastar muita energia pensando na volta do futebol, hoje, é, por consequência, tampar parte da visão para a contenção do coronavírus, e essa partida não merece um segundo de desatenção. A velha máxima, porém, de que o futebol é a coisa mais importante entre as não importantes volta à memória quando vemos, por todo o mundo, jogadores, clubes, federações e confederações discutindo quando é que a bola vai poder rolar de novo.

Não é espantoso que, mesmo em meio à pandemia, a discussão aconteça. Além do dinheiro envolvido, o futebol é um meio de entretenimento dos mais populares no mundo e, em tempos de isolamento, campeonatos dos mais variados na TV fazem falta. Prova irrefutável é a quantidade de reprises que os canais fechados vêm transmitindo. Até mesmo a TV Globo entrará na onda, reprisando a final da Copa do Mundo de 2002 no domingo de Páscoa.

É inútil e desonesto cravar verdades em tempos de incertezas. Hoje, seja nos países que primeiro tiveram contato com o vírus, seja no Brasil, onde a primeira morte por Covid-19 ainda não tem um mês, a data para não só o futebol, mas para os eventos esportivos voltarem a acontecer, ainda é uma grande incógnita. O certo é que, quando voltarem, serão sem público, atendendo as demandas de torneios que precisam acabar, dinheiro que precisa circular, mas não do torcedor que quer voltar ao estádio. Precisamos nos acostumar: não tão cedo será possível ver um estádio cheio. Talvez isso não aconteça em parte alguma no mundo nos meses restam de 2020.

Não é alarmismo. Ao analisar falas de especialistas e movimentos das ligas e eventos esportivos ao redor do mundo, a dúvida fica exposta.

– O mundo não vai voltar a ser o que era.  É uma situação preocupante. Têm pessoas querendo voltar ao que tinham antes. Temos um histórico mais recente de negação da ciência, dos fatos – disse o biólogo Atila Lamarino, em uma aclamada entrevista ao "Roda Viva", da TV Cultura, na última segunda-feira. – Não é para o mundo que a gente vivia que a gente vai voltar. Nem de imediato, nem depois. De imediato não vamos poder voltar até ter uma vacina e isso deve demorar mais de um ano. As pessoas vão mudar – completou.

Ao falar sobre uma possível segunda onda do vírus, o especialista descartou a utopia de que, um dia, em breve, tudo voltará ao normal. Obviamente, tudo será um processo lento quando o número de casos e mortes começar a cair, como em alguns países da Ásia, e eventuais medidas de proteção, como até mesmo a volta do isolamento, podem acontecer.

– A gente não tem como frequentar grandes multidões tão cedo – completou o biólogo.

Pensar em um cenário de transição entre o que vivemos agora e a normalidade, e adaptar para os eventos esportivos, cria uma grande interrogação. Se o ideal será evitar pequenas aglomerações, o que dirá de multidões? Assim, parece óbvio pensar que os eventos esportivos até poderão voltar a serem disputados nessa época, já que o risco entre os atletas será menor, mas dificilmente as autoridades serão irresponsáveis a ponto de permitir um estádio com 10, 30, 50 mil pessoas enquanto a Covid-19 ainda for um risco, ainda que mais baixo que o atual.

Exemplo claro é a China, que já se programava para voltar com seu campeonato no próximo dia 18 – de portões fechados – mas teve que fechar também as fronteiras. O aumento do número de casos no país vindo de outros países fez com que os chineses não permitissem a chegada de estrangeiros desde o último sábado, e muitos jogadores que voltavam para seus clubes foram barrados.

No Ocidente, ainda perdidos sem saber o que fazer, dirigentes de federações tentam teorizar diferentes soluções enquanto vão adiando ainda mais a data do retorno de suas ligas: a Inglaterra cogita sedes fixas sem público para terminar a Premier League; a Itália fala de levar todos os times para a Sardegna para terminar o campeonato, a Espanha diz se preparar para voltar, mas ainda sem plano consistente. A única decisão definitiva até agora, no futebol, foi na Bélgica, onde o campeonato foi cancelado com aclamação do líder Brugge como campeão. No tênis, Wimbledon, que seria disputado em julho, foi cancelado e há quem fale que a temporada só voltará em 2021.

Segundo o jornal Independent, da Inglaterra, a UEFA já cogita a final da Champions League, em Istambul, com portões fechados. Esquece, porém, que ainda há quartas e semifinais a disputar: 12 jogos que ninguém tem ideia de como fazer.

–  Acho que as coisas voltarão ao normal, mas isso vai levar tempo. E é claro que quero ver estádios cheios. Mas se a forma de ter o futebol de volta é jogar sem torcedores, então é assim que vamos jogar – disse Alejandro Dominguez nesta sexta, sobre a Libertadores da América.

Ambos os campeonatos, ainda que sem público, esbarrarão no fato de envolverem viagens internacionais, algo impossível na realidade que o mundo impõe, ao menos por hoje.

Mais um fim de semana se aproxima e, como nos últimos, não teremos o futebol de domingo. Por certo, a situação se repetirá por mais algum tempo. Não se pode, porém, esquecer de duas coisas: a de que, um dia, a bola volta a rolar e que, por enquanto, esta não deve ser nossa maior preocupação.

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