A Fórmula 1 2023 larga no GP do Bahrein para viver o mais longo campeonato em seus mais de 70 anos de existência. Serão 23 etapas em pouco mais de nove meses, uma jornada que faria inveja a Phileas Fogg. Um desafio à logística e ao fôlego de quem acompanha/trabalha com a principal categoria do esporte a motor. Apesar de beirar a insanidade, o calendário tão amplo, e menos diverso do que deveria, diz muito sobre o momento que vive a F1. Não só em termos de popularidade e de uma forte plataforma de engajamento, mas principalmente do ponto de vista comercial e de alto poder financeiro/político. E é por isso que o ano começa às voltas com polêmicas sérias e com mais perguntas do que respostas.
Antes mesmo da fase de apresentação dos carros e da própria pré-temporada, a F1 ganhou as manchetes por uma controvérsia que expôs, uma vez mais, a delicada relação com a Federação Internacional de Automobilismo. Desde que Mohammed Ben Sulayem assumiu a presidência da entidade máxima do esporte, há um confronto de pensamentos do qual não se pode fechar os olhos. Mais de uma vez, ao longo desse tempo, houve controvérsia e críticas. Detentor dos direitos comerciais, o Liberty Media demonstrou impaciência com a insistência de Ben Sulayem em duelar pelos créditos da expansão do campeonato, de mudanças no regulamento e até mesmo por comunicados de imprensa. E essa batalha alcançou o auge quando o mandatário decidiu externar sua opinião sobre o valor da F1 no mercado.

As declarações feitas em seu perfil no Twitter ganharam o mundo e provocaram uma reação rápida e feroz dos americanos do Liberty Media. O grupo enviou uma carta à entidade exigindo uma retratação e ameaçaram o presidente da FIA. O caso é visto como mais um episódio do grave estremecimento na relação entre os dois lados que controlam a F1. E sem dúvida é essa uma das principais questões de 2023: como se dará a comunicação e os acordos entre campeonato e entidade?
Parte dessa resposta será conhecida por meio de Nikolas Tombazis. No início de fevereiro, Ben Sulayem deixou de exercer um papel mais direto nas operações da Fórmula 1. O mandatário entregou o dia a dia nas mãos do engenheiro grego, que assumira recentemente a diretoria de monopostos da entidade que rege o esporte. O órgão disse que a decisão estava tomada há tempos, mas há quem garanta que o movimento aconteceu diante do imbróglio envolvendo os comentários feitos pelo dirigente. O fato é que, diante de um trabalho em ampliar a categoria e atrair investimento, a F1/Liberty Media não pode se dar ao luxo de não saber o que acontece nos bastidores, no trato com o regulamento e com as equipes, incluindo a polêmica regra de censura às manifestações dos pilotos.

De toda a forma, a F1 venceu a parada até aqui, mas a guerra segue.
E falando em batalhas, a temporada 2023 também precisa corresponder à toda propaganda feita em torno do regulamento que trouxe o efeito solo de volta ao Mundial, que prometia espetáculo. O problema é que nada disso aconteceu em 2022 – embora seja razoável olhar com certa parcimônia toda a vez que se tem uma mudança extrema de regras. Só que agora a história precisa ser diferente: espera-se maior maturidade técnica por parte das equipes em soluções que realmente funcionem. A FIA precisou intervir no ano passado para conter o inesperado porpoising – ainda que a contragosto de boa parte do grid. Ainda, houve outras alterações para reduzir a margem de erros. Portanto, o campeonato tem de entregar uma taxa maior de equilíbrio ou corre o risco fracassar.
Deste aspecto vem outra pergunta importante: se nada disso for suficiente, 2023 vai começar a acompanhar uma nova era de domínio na Fórmula 1? É claro que fases de supremacia são comuns – apesar de a Mercedes ter levado essa condição para um patamar que raramente será reproduzido. Mesmo assim, tudo o que a categoria maior do esporte não precisa é de um império sem rivais. Dito isso, é imperativo também reconhecer o trabalho de excelência feito pela Red Bull, que nada tenha a ver com os planos do campeonato. A equipe austríaca já desponta como favorita e parece ter um conjunto ainda mais forte do aquele que começou a temporada passada.

Mas mesmo os taurinos têm suas dívidas. Depois da violação do teto orçamentário em 2021 e da consequente multa para o desenvolvimento do carro deste ano, a Red Bull terá todos os holofotes sobre si no que diz respeito aos gastos e à performance. Porque somente quando o campeonato tiver início será possível entender se a sanção foi realmente punitiva ou apenas serviu para abrir um precedente perigoso. E mais extremo, como a FIA vai tratar novos desvios.
Além de responder sobre um possível novo domínio, a temporada 2023 também aguarda a redenção da Ferrari, agora sob uma chefia diferente. Depois do ano desastroso, Mattia Binotto caiu e deu lugar a um líder carismático e menos sisudo. Frédéric Vasseur é o homem que comanda os italianos e que carrega a responsabilidade de recolocar Maranello nos eixos. Até agora, diz ele que o “clima é perfeito”. Mas há dramas maiores, como os da Mercedes.

A oito vezes campeã do mundo precisa de mais que uma redenção. A esquadra prata tem de encontrar uma solução para um projeto de novo extremo e teimoso. E em meio a tudo isso, terá de lidar com a renovação de contrato de sua maior estrela. Lewis Hamilton entra no último ano de vínculo com os alemães e é sensato pensar nas motivações do recordista de vitórias se o novo W14 não corresponder de novo. Mais uma questão da F1 2023.
Importante colocar aqui também que Max Verstappen é o grande trunfo dos energéticos e está mais do que pronto para acumular recordes. O implacável holandês não teve adversários em 2022, mas não o desabona em nada. O bicampeão já está na prateleira dos grandes. Porém, não é pedir muito que tenha alguma oposição neste ano.

Lewis Hamilton se prepara para disputar a última temporada de contrato com a Mercedes (Foto: Mercedes/LAT Images)
Há também enorme expectativa em torno das mudanças nas diversas duplas de pilotos, como os dois franceses da Alpine, Esteban Ocon e Pierre Gasly, além de Lando Norris e o badalado Oscar Piastri e Kevin Magnussen e Nico Hülkenberg. Fernando Alonso também se destaca – não há como deixá-lo de fora, afinal. E há ainda as duplas dos times de ponta do grid: Red Bull, Ferrari e Mercedes.
E a pré-temporada trouxe ainda um elemento surpresa: uma Aston Martin rápida e consistente, em um projeto muito diferente do último ano. O espanhol de 41 anos acabou de chegar ao time e já percebeu que tem nas mãos um equipamento mais interessante do que em 2022, quando defendeu a Alpine. Seria esse finalmente o acerto que restava na carreira do bicampeão?

Também vai ser interessante acompanhar o aumento das corridas sprint e o impacto no campeonato. Embora o formato pareça só funcionar a pleno em Interlagos, a F1 segue tentando encontrar algum resultado diferente. É quase a definição de insanidade, mas não deixa de ser curioso. Com relação ao calendário, Las Vegas é a estreia aguardada – e onde o Mundial concentra todas as fichas para dominar de vez os Estados Unidos. Ainda há o Catar, que agora ingressa para valer no campeonato.
Antes do apagar das cinco luzes do grid para o começo da 74ª temporada da história, há também a chance da estreia de Felipe Drugovich. Reserva da Aston Martin, o brasileiro foi chamado durante os testes para substituir Lance Stroll – que se machucou ao sofrer um acidente de bicicleta. A equipe confirmou que o campeão da F2 2022 será escalado caso o canadense realmente não possa disputar a primeira etapa do ano. Faz todo o sentido. E não deixa também de ser uma resposta à pergunta que ficou no ano passado: por que há pouco espaço para os campeões da base?
A largada do GP do Bahrein está marcada para 12h (de Brasília).
